BIARRITZ — O curta-metragem paraibano Caso Isolado estreia mundialmente nesta quarta-feira (30), no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz, na França. Dirigido por Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy, o filme aborda diferenças de tratamento relacionadas ao tom de pele dentro da população negra e os conflitos de pessoas que não se encaixam nas classificações raciais tradicionalmente reconhecidas no Brasil.
A trama acompanha Cristina, uma entregadora de cosméticos que percorre a cidade para realizar vendas. Em diferentes ambientes sociais, ela se depara com situações que expõem preconceitos incorporados ao cotidiano.
Experiência do “não lugar”
Jamila Facury, que também interpreta a protagonista, afirma que o racismo pode aparecer tanto de forma explícita quanto em situações tratadas como sutis. Para a diretora, comportamentos enraizados na cultura podem ser difíceis de identificar por quem sofre a discriminação.
O filme se concentra especialmente na experiência de pessoas que, nas palavras de Jamila, ocupam um “não lugar” nas classificações raciais brasileiras: não são consideradas negras o suficiente, mas também não são vistas como brancas. Segundo ela, essas pessoas podem reproduzir preconceitos contra negros de pele mais escura e, ao mesmo tempo, sofrer discriminação.
O projeto surgiu da iniciativa Casos Isolados, concebida inicialmente como uma coletânea de histórias que poderá ser transformada em um longa-metragem. Diante da falta de recursos para uma produção mais extensa, a equipe escolheu concentrar o trabalho em uma das narrativas. Edson explica que a história original teria 40 ou 50 minutos e precisou ser condensada para o formato de curta.
A produção envolveu mais de 30 profissionais da Paraíba. Para Edson, levar o cinema paraibano a Biarritz representa uma forma de afirmar a existência e a capacidade de produção cinematográfica do estado.
Jamila também acumulou funções na realização do filme. Além de atriz e diretora, ela já trabalhou como figurinista, maquiadora, assistente e diretora de arte. A experiência no teatro e no audiovisual, segundo ela, ajudou na preparação das cenas e na conciliação entre atuação e direção.
Os diretores avaliam que a obra pode dialogar com o público europeu, embora trate de uma realidade brasileira. Edson relaciona a busca por espaço e reconhecimento a diferentes sociedades e afirma que o filme mostra como heranças da colonização e da escravidão ainda repercutem nas relações sociais.
Para Jamila, a própria seleção para o festival já representa uma conquista, independentemente de uma eventual premiação. Edson diz que o objetivo também é criar oportunidades e ampliar a presença de vozes pouco representadas no audiovisual brasileiro, destacando a atuação de uma mulher negra simultaneamente como atriz e diretora.






