A campanha de Flávio Bolsonaro para disputar a Presidência enfrenta novas dúvidas após a divulgação de conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento de um filme em homenagem a Jair Bolsonaro. O senador afirma que buscava patrocínio privado para uma produção sobre o próprio pai e nega ter cometido ilegalidades.
De acordo com informações atribuídas ao Intercept Brasil no texto, Vorcaro teria repassado ao menos R$ 61 milhões para a obra no ano passado. O acordo de financiamento chegaria a R$ 134 milhões, e Flávio teria cobrado a liberação do restante. Vorcaro está preso e negocia um acordo de delação premiada com potencial para atingir autoridades.
Em nota, Flávio disse: “Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda”. Ele também afirmou não ter recebido dinheiro ou qualquer benefício e negou ter intermediado negócios com o governo.
Estratégia de campanha
O senador tenta ampliar seu eleitorado apresentando-se como uma versão mais moderada do pai. Em vídeos nas redes sociais, destacou que tomou vacina, falou sobre a importância do Carnaval e abordou feminicídios, falta de creches e a trajetória de mulheres como Berta Lutz, Antonieta de Barros e Maria da Penha.
A estratégia, porém, é contestada por adversários. Um vídeo compartilhado pelo deputado Lindbergh Farias associa Flávio à extrema-direita e menciona declarações sobre o possível uso da força para garantir anistia ou indulto a Jair Bolsonaro. O conteúdo também cita um pedido feito pelo senador para que os Estados Unidos bombardeassem navios na costa brasileira.
Para Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, o caso Vorcaro prejudica o esforço de reduzir a rejeição ligada ao sobrenome Bolsonaro e às acusações de corrupção. A senadora Damares Alves, por outro lado, afirma que Flávio não estaria tentando parecer moderado: ele teria esse perfil e poderia dialogar com diferentes grupos.
Acusações antigas
A nova controvérsia se soma às suspeitas relacionadas ao gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e aos vínculos com Adriano da Nóbrega. O senador nega as acusações e diz que elas resultam de perseguição política.
O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Flávio em 2019 por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. O processo foi paralisado por decisões judiciais que questionaram o foro do senador e a validade das provas. O Superior Tribunal de Justiça anulou decisões que permitiram a quebra de sigilos, e o Supremo Tribunal Federal anulou relatórios do Coaf usados na investigação. Segundo o Ministério Público, o caso foi encerrado após decisão de Gilmar Mendes em fevereiro de 2025.
A denúncia do Ministério Público apontava que 12 funcionários fantasmas receberam R$ 6,1 milhões e que parte dos valores teria sido repassada a Fabrício Queiroz. O senador afirma que Queiroz administrava recursos para contratar informalmente pessoas que atuavam em atividades parlamentares, e não operava um esquema de rachadinha.
Flávio também diz que não conhecia as acusações contra Adriano da Nóbrega quando o homenageou e que não poderia ser responsabilizado por mudanças posteriores na conduta do policial. Marcelo Freixo, que conviveu com ele na Assembleia, afirma que o senador representava o mesmo projeto político da família Bolsonaro, apesar de apresentar comportamento mais cordial.
Na avaliação de Sanches, Flávio se consolidou entre eleitores bolsonaristas e antipetistas, mas ainda disputa uma parcela de 10% a 12% do eleitorado que não se identifica automaticamente com nenhum dos dois polos. Essa faixa, segundo ele, pode decidir o voto apenas na reta final da campanha.








