Pesquisas realizadas por Harvard, Stanford e Anthropic convergem na indicação de que a inteligência artificial generativa já afeta principalmente a entrada no mercado de trabalho. Os estudos não identificam aumento claro do desemprego entre as profissões mais expostas, mas apontam uma desaceleração nas contratações de profissionais em início de carreira.
Em agosto de 2025, dois economistas de Harvard analisaram currículos e vagas de 62 milhões de trabalhadores em 285 mil empresas. Nas companhias que adotaram IA generativa, o emprego júnior caiu entre 7% e 12%, enquanto o sênior continuou crescendo. A redução ocorreu por causa do ritmo menor de contratações, não de demissões.
Um ano depois, em agosto de 2026, pesquisadores de Stanford chegaram a resultado semelhante usando dados de folha de pagamento. Segundo o levantamento, quem entra no mercado tem 19% menos chances de conseguir emprego do que teria sem a IA generativa. No ano anterior, essa diferença era de 15%.
Previsões e dados medidos
As conclusões contrastam com afirmações e projeções divulgadas no debate sobre a tecnologia. Em maio de 2025, Dario Amodei, da Anthropic, disse que metade das vagas de entrada em escritório desapareceria. Em seguida, Sam Altman falou no fim de categorias inteiras de profissões. Em junho de 2026, Amodei afirmou que o desemprego provocado pela IA poderia ser permanente. Essas declarações não vieram acompanhadas de metodologia, amostra ou data verificável.
O Fórum Econômico Mundial estimou 92 milhões de empregos deslocados até 2030, mas também projetou a criação de 170 milhões de vagas no mesmo período. A Boston Consulting Group calculou que entre 50% e 55% dos empregos americanos seriam transformados em três anos. Esses números são projeções condicionadas às premissas dos modelos, e não contagens de empregos afetados.
Em março de 2026, a própria Anthropic divulgou dados de uso de seus modelos. A empresa não identificou aumento claro do desemprego nas profissões mais expostas, mas registrou desaceleração na contratação de profissionais entre 22 e 25 anos.
Situações diferentes
Os dados disponíveis indicam maior exposição para quem está começando, independentemente da idade. O grupo inclui pessoas que mudaram de área aos 38 anos, voltaram ao mercado depois de uma pausa ou recomeçaram após um desligamento.
Para trabalhadores demitidos com menção à inteligência artificial como motivo, a Forrester estima que 55% dos empregadores se arrependeram dos cortes e projeta que metade das demissões será revertida. Quando as empresas recriam os postos, porém, os salários podem ser inferiores aos recebidos anteriormente.
Entre profissionais já estabelecidos, não há conclusão equivalente. A ausência de evidências sobre esse grupo é atribuída à falta de estudos suficientes, e não à comprovação de que essas pessoas estejam protegidas. Bill Gates afirmou, em agosto, que esperar pela confirmação do efeito nas estatísticas pode limitar a capacidade de reação.
No Brasil, os números oficiais ainda não mostram o mesmo efeito. Em março de 2026, o país criou 228 mil postos formais e alcançou 49 milhões de empregos com carteira assinada, o maior estoque registrado. Pessoas de 18 a 24 anos ocuparam mais de 70% das vagas líquidas do mês, segundo o Caged. Esses dados mostram o comportamento do mercado brasileiro, mas não medem especificamente o impacto da IA generativa sobre as contratações.
Angelo Pixel escreve a newsletter diar.ia.br sobre inteligência artificial. Ele trabalha com IA desde 2020, foi Technical Product Manager na Amazon, recebeu prêmios da Mozilla e do Google e integra o Claude for Open Source Program, da Anthropic.








