Os cortes de energia se espalharam para bairros de Caracas nesta semana, enquanto moradores de estados do interior da Venezuela enfrentam interrupções prolongadas e protestos noturnos. A crise ocorre durante a tentativa do governo interino de Delcy Rodríguez de recuperar a infraestrutura elétrica e fechar acordos para ampliar a geração nesta sexta-feira (11).
Em Táchira, na fronteira com a Colômbia, moradores de San Cristóbal afirmam que a eletricidade produzida no estado é enviada à capital. A termoelétrica local gera cerca de 70 megawatts, segundo o ex-deputado opositor Heriberto Labrador, mas parte da produção é direcionada ao sistema interconectado nacional. De acordo com ele, há localidades que ficam 26 horas sem energia.
A insatisfação também levou moradores a bloquear, durante as noites desta semana, a estrada entre Táchira e Barinas. Os protestos tiveram buzinaços e foram motivados pelos cortes diários. Em Barinas e Valencia, que fica a 170 km de Caracas, manifestações ocorreram em meados de agosto.
Produção abaixo da demanda
A Venezuela produzia 20.000 megawatts por dia e consumia cerca de 12.000 antes da chegada do chavismo ao poder, em 1999, segundo o deputado opositor Ezio Angelini. Atualmente, a produção média é de 12.000 megawatts, enquanto a demanda chega a 14.000.
Durante visita ao país, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou que existe “uma enorme capacidade de geração elétrica que não está funcionando”. Segundo ele, parte da infraestrutura poderia ser reativada rapidamente e acrescentar gigawatts ao sistema.
Para recuperar a capacidade instalada, Rodríguez enviou ao Legislativo uma reforma elétrica, ainda sem aprovação, e firmou acordos com empresas transnacionais, entre elas a GE Vernova. O objetivo anunciado é recuperar 5.000 megawatts em quatro anos. A presidente interina também estabeleceu um convênio com os Estados Unidos que cede 20% das reservas petrolíferas venezuelanas, além de contratos com grandes empresas do setor.
A falta de energia ocorre no momento em que o governo tenta atrair capital estrangeiro para petróleo e mineração, atividades que consomem grandes volumes de eletricidade. A ampliação da geração também é necessária para sustentar refinarias e operações de extração.
Reclamações no interior
Moradores de San Cristóbal relatam perdas materiais e dificuldades para manter atividades comerciais e serviços básicos. Labrador disse que os apagões “colapsam a atividade comercial e afetam gravemente a cadeia de frio dos produtores agropecuários”. O governador de Táchira, Freddy Bernal, não comentou o assunto quando questionado pela imprensa local.
A secretária Josner Herrera, de 38 anos, afirmou que os cortes são usados para evitar protestos em Caracas. Irma Villasmil, 48, subgerente de um banco em San Cristóbal, disse que sua geladeira queimou duas vezes.
A crise é atribuída no texto a décadas de falta de manutenção, corrupção e investimentos insuficientes. Especialistas citados também apontam a dependência de grandes complexos hidrelétricos e a dificuldade de modernizar termoelétricas. O cenário se agravou após a captura de Nicolás Maduro em janeiro, quando Rodríguez assumiu o governo sob pressão de Washington.
A reforma elétrica é apresentada pelo governo como uma tentativa de atrair investimentos e recuperar o setor, mas ainda não há consenso político para sua aprovação. Enquanto isso, Táchira e outras regiões continuam enfrentando calor, perdas materiais e interrupções frequentes, ao mesmo tempo que os apagões passam a atingir a capital.







