A alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Kaja Kallas, sofreu uma nova derrota política depois que Estados-membros pressionaram pelo cancelamento de um grupo de especialistas em defesa europeia. O episódio aumentou a contestação ao papel dela e à estrutura do Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE).
O SEAE cancelou, no domingo, o lançamento do grupo, que deveria produzir um relatório sobre o fortalecimento das capacidades de defesa da UE e apontar lacunas estratégicas de investimento. Kallas havia anunciado a iniciativa poucos dias antes, com o objetivo de reunir especialistas em segurança e defesa para propor soluções.
Um responsável da UE afirmou que a decisão de não seguir adiante ocorreu porque alguns países consideraram que aquele não era o caminho adequado naquele momento. França e outros governos também criticaram o fato de o tema não ter sido discutido em nível ministerial e de a maioria das capitais ter sido surpreendida.
A Itália liderou a oposição. Entre os nomes escolhidos estava Roberta Pinotti, ex-ministra da Defesa, vista como adversária política do ministro italiano Guido Crosetto. A composição desagradou países representados no grupo, enquanto outros reagiram por terem ficado de fora.
Três responsáveis da UE classificaram o episódio como “má gestão”, “infeliz” e “uma grande asneira”. Para o serviço diplomático, a criação do grupo buscava acelerar a preparação europeia em defesa antes da Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro. A iniciativa também ocorreria enquanto o governo dos Estados Unidos prepara, até ao final do ano, uma revisão do destacamento de tropas.
Pressão sobre o modelo institucional
O episódio ocorreu em meio a uma disputa sobre a condução da política externa europeia. Kallas tem divergências com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que defende uma “Comissão geopolítica”. Ao mesmo tempo, uma proposta franco-alemã prevê colocar o SEAE sob a alçada da Comissão, com um mandato reforçado.
Kallas rejeitou a mudança após uma reunião informal de ministros dos Negócios Estrangeiros da UE na Irlanda. Para ela, transferir todas as atribuições para a Comissão poderia reduzir a influência dos Estados-membros pequenos. “Os Estados-membros foram claros ao dizer que não querem perder o volante da política externa”, afirmou.
A posição institucional de Kallas foi criada para combinar as funções de vice-presidente da Comissão e de alta representante da UE. O modelo busca seguir a orientação dos Estados-membros e manter todos os países envolvidos nas decisões. Diplomatas, porém, disseram que os governos querem um SEAE a serviço deles, e não uma instituição que tome iniciativas sem consulta prévia.
Não é a primeira vez que Kallas avança sem apoio suficiente. No ano passado, ela propôs um pacote de apoio militar à Ucrânia de 40 bilhões de euros, rejeitado pelos líderes da UE.
A alta representante também foi criticada após afirmar, em maio, que os Estados Unidos haviam evacuado a embaixada em Kiev diante de alertas sobre um ataque russo iminente. Washington desmentiu a declaração. Em junho, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa'ar, interrompeu os contatos com Kallas após relatos de uma comparação privada entre Israel e a África do Sul do apartheid.
A atuação dela ainda enfrenta questionamentos relacionados ao uso de ativos russos congelados para financiar a Ucrânia e às relações com a administração norte-americana. Um diplomata da UE resumiu o cenário dizendo que há descontentamento generalizado com a forma como Kallas administra esse tipo de questão.







