A agência russa Rossotrudnichestvo anunciou um acordo para abrir 11 novas Casas Russas em países africanos, na Tailândia e na Armênia. O plano foi divulgado uma semana depois do fechamento da unidade de Berlim, que funcionou por 40 anos na capital alemã.
Igor Chaika, chefe da Rossotrudnichestvo, afirmou que os novos centros terão como objetivo promover “uma imagem moderna, verdadeira e eficaz da Rússia”. A agência coordena os centros culturais russos no exterior.
Críticos europeus e ucranianos, porém, consideram as Casas Russas instrumentos de propaganda do Kremlin, influência política, coleta de informações e recrutamento. A inteligência ucraniana afirma que essas estruturas passaram a apoiar atividades de guerra híbrida, espionagem e recrutamento clandestino para a frente de combate na guerra contra a Ucrânia.
Fechamentos na Europa
Em 1 de setembro, o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha anunciou o fechamento da Casa Russa em Berlim e do consulado-geral russo em Bonn. A decisão foi apresentada como resposta a um ato de sabotagem no aeroporto de Leipzig, atribuído diretamente à Rússia pelas autoridades alemãs. O Kremlin rejeitou as acusações e classificou o motivo como um pretexto “fabricado”.
Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, pelo menos quatro centros russos foram fechados na Europa. A Eslovênia encerrou sua unidade na primavera de 2022; depois, medidas semelhantes foram adotadas pela Romênia, pela Moldova e pela Alemanha. As autoridades desses países apontaram ameaças à segurança nacional.
Marie-Agnes Strack-Zimmermann, presidente da Comissão de Segurança e Defesa do Parlamento Europeu, disse estar convencida “de que este é um lugar para espiões”. Ela também relacionou os centros a ataques híbridos, sabotagem e ações que classificou como terror.
As Casas Russas foram criadas inicialmente como equivalentes ao Instituto Goethe, ao Instituto Cervantes, à Alliance Française e ao British Council. Entre suas atribuições declaradas estão a promoção da língua russa, a seleção de estudantes estrangeiros para universidades russas, a organização de exposições e o apoio a compatriotas no exterior.
Expansão para a África
Os novos centros serão instalados no Quênia, na República Democrática do Congo, em Madagascar, no Mali, em São Tomé e Príncipe, no Senegal, em Serra Leoa, no Togo, na Tailândia e na Armênia. Neste último país, estão previstos dois centros em Artashat e Ashtarak. Já existem estruturas semelhantes em Guiumri e Erevan.
A Rossotrudnichestvo afirma que sua rede parceira crescerá de 25 para 36 unidades. Oito dos 11 novos centros ficarão na África, onde a agência diz já manter 16 Casas Russas. Também há unidades no Burquina Faso, em Gana, na Guiné, no Níger, na Somália, no Chade, na República Centro-Africana e na Namíbia.
Analistas relacionam a expansão à estratégia de aumento da presença política, informativa e militar da Rússia no continente. O movimento ocorre enquanto a França encerra bases, retira tropas de países africanos e perde espaço no mercado de mídia local.
Em janeiro de 2026, Evgueni Primakov, então chefe da Rossotrudnichestvo, disse que as Casas Russas no Mali e na República Centro-Africana haviam sido abertas inicialmente por uma empresa militar privada africana não identificada. Observadores associaram a descrição ao grupo Wagner.
Atualmente, o Corpo Africano, formação paramilitar russa controlada por Moscou, é apontado como parceiro de governos militares na África Ocidental. O grupo substituiu muitos mercenários do Wagner após a morte de seu fundador, Evgueni Prigojin. Juntas militares do Mali, do Níger e do Burquina Faso recorreram ao Corpo Africano em uma tentativa de reduzir a influência francesa.
Especialistas do grupo EUvsDisinfo avaliam que a Rússia usa cursos de língua, bolsas em universidades russas e exibições de filmes para formar líderes de opinião, jornalistas e blogueiros locais alinhados à sua posição. A inteligência ucraniana afirma que a atuação dos centros ultrapassa a diplomacia cultural e inclui apoio à guerra híbrida, espionagem e recrutamento.







