BRUXELAS — Cerca de 300 tiroteios foram registrados na Bélgica em cinco anos, em meio à expansão de redes criminosas ligadas ao tráfico de drogas e aos portos de Antuérpia e Roterdã, na Holanda. O diretor da alfândega levantou o risco de o país se tornar um narcoestado.
Os grupos passaram a disputar territórios e a usar armas de fogo. Em frente a uma pizzaria, 17 marcas de balas ainda indicam uma rajada de fuzil Kalashnikov. O proprietário, Salvatore, disse que os disparos deixaram de ser um fenômeno ocasional: “Não se atirava como agora”.
Na praça de Belém, crianças voltaram a brincar perto dos chafarizes depois de uma manifestação organizada após os tiroteios. Camille Mottet, da associação A Cidade das Crianças, afirmou que o local antes era frequentado por famílias, mas passou a ser ocupado principalmente por homens depois da pandemia de Covid.
O prefeito de Saint-Gilles, Jean Spinette, defende uma combinação de prevenção e repressão. Segundo ele, o tráfico de rua mudou e passou a ser conduzido por organizações criminosas que usam armas automáticas para intimidar grupos rivais. Spinette afirmou que ainda não houve vítimas graves, mas teme que isso mude.
Investigação e vulnerabilidade social
O procurador real, Julien Moinil, pede dezenas de investigadores para identificar os líderes das redes. Ele disse que operações que prendem pequenos traficantes ajudam a tranquilizar a população, mas defendeu que a polícia federal tenha capacidade para combater o crime organizado em Bruxelas como um todo.
Mehdi Kassou, diretor-geral da BelRefugees, alertou para os efeitos dos cortes no orçamento das associações. A organização, que apoia refugiados e migrantes e acolhe cerca de 6 mil pessoas por ano, afirma que a retirada dos recursos pode levar pelo menos mil pessoas a se juntarem às milhares que vivem nas ruas ou estão sem abrigo em Bruxelas.
Kassou avalia que a vulnerabilidade pode aumentar a exposição ao tráfico de pessoas e à exploração por organizações criminosas. Na região próxima à estação Midi, em Saint-Gilles, consumidores de crack passaram a circular sem tentar se esconder dos policiais.







