São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Política

A rede evangélica que impulsiona a atuação política de Michelle Bolsonaro

Pastores, pesquisadoras e aliadas descrevem a influência religiosa sobre a ex-primeira-dama, candidata ao Senado.

A rede evangélica que impulsiona a atuação política de Michelle Bolsonaro

Michelle Bolsonaro ampliou sua presença na política com apoio de lideranças evangélicas que atuam como conselheiros espirituais, aliados e referências para sua visão de mundo. A ex-primeira-dama, que disputa seu primeiro cargo eletivo aos 44 anos, concorre ao Senado e consolidou espaço no campo conservador.

No 7 de Setembro, Michelle não participou dos atos sob a justificativa de que precisava cuidar do marido, Jair Bolsonaro. Nas redes sociais, porém, homenageou André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal, a quem chamou de “ungido” e “escolhido por Deus”. Também compartilhou uma mensagem com o bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, pedindo orações por um “verdadeiro despertamento espiritual” no Brasil.

As manifestações reforçaram a associação de Michelle e de seus aliados ao chamado lado de Deus, em oposição aos adversários. Pastores e especialistas em religião relacionam essa postura à teologia do domínio, corrente que defende a participação dos cristãos em todas as áreas da sociedade, inclusive no governo, para submeter o Estado a valores bíblicos.

Da campanha de 2018 ao PL Mulher

A aproximação entre Michelle e a política evangélica ganhou visibilidade antes das eleições de 2018. Naquele período, o pastor José Wellington Bezerra, uma das principais lideranças da Assembleia de Deus no Brasil, visitou a casa de Bolsonaro e declarou: “De todos os candidatos, o único que fala o idioma do evangélico é Bolsonaro”. Michelle ainda era pouco conhecida e não apareceu nas fotos divulgadas da visita.

Na campanha de 2022, a equipe de Bolsonaro passou a tratá-la como uma ponte com mulheres evangélicas. A partir de agosto daquele ano, Michelle participou de diversos eventos e dizia que o marido era um “escolhido de Deus”, além de atribuir à reeleição dele um “propósito de libertação” da nação.

A atuação contribuiu para sua entrada na política e para a expansão do PL Mulher, ala do partido dedicada a encontros de mulheres conservadoras. Sob sua liderança, o grupo se espalhou por todos os estados, combinando discussões sobre política, religião, família e cuidado.

Dois dias depois do primeiro turno, quando Luiz Inácio Lula da Silva já apresentava vantagem sobre Bolsonaro, o casal voltou ao megatemplo dirigido por José Wellington, em São Paulo. O pastor pediu votos para Bolsonaro, enquanto Michelle discursou no púlpito e comparou a eleição a uma batalha entre a luz e as trevas. “A igreja precisa se posicionar, a igreja precisa aprender”, afirmou.

Em 2026, com Bolsonaro em prisão domiciliar, Flávio Bolsonaro foi escolhido pelo pai para disputar a Presidência. O senador iniciou uma agenda em diferentes denominações evangélicas pela igreja de José Wellington, que declarou: “Que o Senhor o leve para ser presidente da nossa nação”.

A relação se desgastou depois que Priscila Costa, deputada federal, sobrinha-neta de José Wellington, vice-presidente do PL Mulher e aliada de Michelle, foi preterida por Flávio nas negociações do PL no Ceará. O episódio contribuiu para que Michelle gravasse críticas ao enteado, divulgadas semanas após se tornar público um pedido de dinheiro feito por Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master.

Segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg do final de junho, Flávio perdeu 10 pontos percentuais entre as mulheres e oito pontos entre os eleitores que se identificam como evangélicos. Ele pediu desculpas a Michelle e chegou a cogitar Priscila para a vice-presidência, mas a indicação não se concretizou.

Pastores e conselheiros

No Rio de Janeiro, Michelle frequentava a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia, que celebrou seu casamento com Bolsonaro em 2015. Depois de um desentendimento entre Malafaia e Bolsonaro, ela passou, em 2016, a frequentar a Igreja Batista Atitude, do pastor Josué Valandro Júnior. Michelle atuava como intérprete de Libras nos cultos de domingo, e sua casa chegou a receber uma célula para crianças surdas.

Após a mudança para Brasília, a proximidade com Valandro diminuiu. Michelle também passou a frequentar a Comunidade das Nações, do pastor JB Carvalho, e a Sara Nossa Terra, de Robson Rodovalho, que foi deputado federal. Entre suas amigas estão a senadora Damares Alves e a bispa Dirce Carvalho, esposa de JB.

Dirce organiza conferências de liderança para mulheres cristãs com o lema de “governar todas as áreas da vida”. Os encontros já reuniram mais de 15 mil mulheres e tiveram a participação de Michelle.

Outros nomes próximos são os pastores Renê Terra Nova e Valnice Milhomens. Terra Nova lidera a filial brasileira da International Coalition of Apostolic Leaders, fundada em 1999 nos Estados Unidos por John P. Kelly, sob a presidência de C. Peter Wagner. Milhomens afirmou recentemente que os evangélicos devem “tomar o poder no Brasil”.

O pastor batista Sérgio Dusilek avalia que as igrejas frequentadas por Michelle incorporaram um discurso de busca por poder político. Para ele, a convivência nesses espaços contribuiu para a incorporação desse ideário.

A pesquisadora Pietra Cretella afirma que Silas Malafaia foi, no passado, o principal conselheiro de Michelle e que Robson Rodovalho passou a ocupar esse papel. Ela também cita encontros com a pastora nigeriana Obii Pax-Harry, ligada à International Coalition of Apostolic Leaders e à Brazil Apostolic Conference, do apóstolo Renê Terra Nova.

Damares Alves declarou que não defende qualquer forma de domínio religioso sobre o Estado, mas a participação democrática dos cristãos na vida pública. A senadora afirmou ainda defender o Estado laico, a liberdade religiosa e a proteção dos direitos de todas as pessoas, independentemente de sua religião.

Obii Pax-Harry disse que conhece o Brasil há 15 anos e que passou uma semana ao lado de Michelle antes da divulgação do vídeo contra Flávio. A pastora afirmou, porém, que Michelle não é sua mentorada e que não mantém com ela relação formal de trabalho, aconselhamento ou instrução.

Discurso religioso e força própria

Para Christina Vital, professora da Universidade Federal Fluminense, a teologia do domínio não determina automaticamente a conduta dos indivíduos nem é a única explicação para a atuação de evangélicos na política. Na avaliação dela, a corrente oferece uma linguagem e estratégias para ocupar espaços públicos, mas a trajetória de Michelle também deve ser analisada por suas dimensões pessoais, econômicas, políticas e partidárias.

Vital afirma que Michelle não é apenas porta-voz de outras lideranças e tem força política própria. Fábio Py, doutor em Teologia, diz que ela articula textos bíblicos com a atuação política de maneira natural, apoiada por sua formação e trajetória religiosa.

Cretella identifica no discurso de Michelle referências a Deus, à divisão entre bem e mal, à autoridade moral e à vitimização. Para a pesquisadora, no vídeo contra Flávio, a ex-primeira-dama se apresentou como guardiã do bolsonarismo mais fiel e usou valores cristãos para reforçar sua posição.

A pesquisadora afirma que mensagens de lealdade, cuidado, perseguição e retorno do líder podem carregar, de forma indireta, apelos à guerra espiritual. Michelle, segundo Cretella, passou a ocupar posição central entre os evangélicos na política, embora mantenha a narrativa de que Bolsonaro é o salvador desse campo político.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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