SÃO PAULO — A religião passou a ocupar espaço central na disputa presidencial a poucos dias do primeiro turno, marcado para domingo (4). O senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL) acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de ajudar a disseminar um boato sobre a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. A entidade negou participação e afirmou que o candidato deveria apresentar provas.
Em ato de campanha em São Paulo, na segunda-feira (28), Flávio ergueu uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. No dia anterior, em Goiânia, ele havia associado a circulação da informação ao PT e a pessoas dentro da CNBB, embora não tenha apresentado evidências. Em nota publicada no domingo (27), a entidade declarou: “A mentira não se combate com outra mentira”.
Como o tema entrou na campanha
A origem do boato remonta a um comentário feito em 24 de setembro pela jornalista Maria Cristina Fernandes, que mencionou na GloboNews um suposto movimento na Igreja Católica em reação a um projeto de lei de parte dos evangélicos para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil. A fala não relacionava a iniciativa a Flávio Bolsonaro.
Depois, perfis de esquerda passaram a associar o comentário ao candidato. A GloboNews se retratou e informou que a referência era a um projeto apresentado em 2007 pelo deputado federal Victório Galli, então no PMDB-MT e atualmente no PP-MT. O texto foi arquivado em 2008.
O assunto também foi explorado por políticos de esquerda. Em entrevista à Band no domingo (27), Luiz Inácio Lula da Silva disse que mexer com Nossa Senhora Aparecida não era aceitável e afirmou não saber se o episódio era fake news. Uma declaração de Flávio publicada no X em 24 de agosto, na qual disse que decretaria que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo, voltou a circular no fim de semana.
A reação do candidato ocorreu em um contexto de manifestações de bispos e arcebispos sobre compromisso com os pobres, fim dos jogos de azar e soberania nacional. Em 7 de setembro, dom Orlando Brandes defendeu a soberania durante homilia no Santuário Nacional de Aparecida. Vídeos da CNBB Regional Norte 1, divulgados em 21 de setembro, também trataram de soberania, democracia e atenção à manipulação religiosa, sem declarar apoio a partidos ou candidatos.
Estrutura e posição da CNBB
Criada em 1952, a CNBB reúne os bispos católicos brasileiros e coordena questões pastorais e diretrizes da Igreja no Brasil. A entidade é presidida desde 2023 por dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano de Porto Alegre, e é reconhecida pela Santa Sé como órgão oficial de representação coletiva e coordenação pastoral do catolicismo no país.
A organização inclui Assembleia Geral, Conselho Permanente, Conselho Episcopal Pastoral, 12 Comissões Episcopais e 19 Comissões Episcopais Regionais. Em diretrizes para as eleições publicadas em 18 de junho de 2026, a CNBB afirmou que não indica candidatos ou partidos e defendeu a participação consciente dos cidadãos, a dignidade humana, a promoção da vida e o bem comum.
Possível efeito eleitoral
O professor Gerson Leite de Moraes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, avaliou que a CNBB é apartidária, mas não apolítica. Para ele, ao associar a eleição a temas religiosos e mobilizar sua base evangélica, Flávio pode aumentar a tensão com os católicos.
Os dados do Censo 2022 mostram que os católicos ainda são maioria, embora tenham passado de 65% em 2010 para 56,7% em 2022. No mesmo período, os evangélicos cresceram de 21,7% para 26,9%.
Pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (28), sob o registro BR-06520/2026, indicou Lula com 48% das intenções de voto entre católicos, ante 29% para Flávio. Entre evangélicos, o candidato bolsonarista tinha 46%, contra 27% para Lula.
Para Brenda Carranza, professora da Unicamp e pesquisadora visitante da Faperj-Uerj, a imagem de Nossa Senhora Aparecida também mantém vínculos com parte dos evangélicos que anteriormente era católica. Ela avaliou que os conflitos envolvendo a santa e a CNBB dificilmente alterariam votos definidos por razões ideológicas. Carranza também afirmou que muitos católicos não conhecem a estrutura ou o funcionamento da entidade, o que pode limitar o efeito eleitoral do atrito.








