A menos de uma semana do primeiro turno, Nossa Senhora Aparecida passou a ocupar o centro do debate eleitoral. Entre 24 e 27 de setembro, foram registradas 1,61 milhão de publicações sobre o tema, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque. Apenas 17% das postagens analisadas tratavam da acusação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do Brasil.
A maior parte das publicações abordou o debate cultural e religioso, a judicialização do caso, a liberdade de expressão e a defesa da padroeira. O instituto classificou o episódio como o terceiro maior volume de menções sobre política nacional em 72 horas em 2026, atrás dos embates entre André Mendonça e Alexandre de Moraes e do caso “Dark Horse”.
Como a polêmica começou
A discussão ganhou força depois de uma fala sobre a existência de um movimento para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira. A proposta mencionada havia sido apresentada em dezembro de 2007 e arquivada pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados em agosto de 2008.
Trata-se do Projeto de Lei n 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli (PP-MT). O texto pretendia retirar a expressão “padroeira do Brasil” do feriado de 12 de Outubro e estabelecer a denominação “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
Flávio Bolsonaro negou que houvesse possibilidade de retirada do título e atribuiu a repercussão à “milícia do PT”. Em seguida, o candidato voltou a tratar do assunto e acusou integrantes da CNBB de terem ajudado a disseminar o conteúdo para favorecer o PT. A organização negou ter produzido, autorizado ou participado da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral.
“A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou a CNBB em nota publicada no domingo (27), ao contestar a acusação.
Nossa Senhora Aparecida foi proclamada padroeira do Brasil pelo papa Pio 11 em 1931. A devoção à santa é associada ao encontro de uma imagem no rio Paraíba do Sul, em São Paulo, por três pescadores, no século 18. O dia 12 de outubro tornou-se feriado nacional em 1980.
Igreja e candidatos entram no debate
Ao longo de setembro, padres e religiosos publicaram orientações e fizeram discursos sobre as eleições de 2026. Uma cartilha da Diocese de São João da Boa Vista foi interpretada por eleitores bolsonaristas como uma orientação para a reeleição de Lula, embora não citasse candidatos.
O documento defendia um voto “consciente”, “livre” e “responsável” e indicava critérios como combate ao ódio, perdão e misericórdia, promoção da vida, atenção aos mais pobres e respeito ao meio ambiente. Dom Orlando Brandes, arcebispo emérito de Aparecida, também pediu o voto consciente e defendeu a soberania nacional, sem mencionar nomes.
Os bispos da Regional Norte 1 da CNBB, do Amazonas e de Roraima, fizeram declaração semelhante em 21 de setembro, ao recomendar que os eleitores considerassem candidatos comprometidos com o meio ambiente e a soberania nacional.
O tema também foi explorado por candidatos. Lula defendeu a liberdade religiosa e disse que “esse negócio de mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”. Geraldo Alckmin afirmou que as tradições religiosas estariam protegidas enquanto ele e Lula governassem o país. Ronaldo Caiado, por sua vez, declarou ser devoto da santa e rejeitou a possibilidade de retirada do título.
Decisão no Supremo
A defesa de Flávio Bolsonaro pediu ao Supremo Tribunal Federal a remoção de publicações que relacionavam o candidato à desinformação sobre Nossa Senhora Aparecida. André Mendonça determinou inicialmente a exclusão de uma série de conteúdos, incluindo uma publicação do humorista Antonio Tabet.
No domingo (27), Flávio Dino suspendeu a decisão. Para o ministro, a retirada obrigatória poderia fazer com que a expressão “família miliciana” fosse interpretada como verdadeira e como referência direta aos Bolsonaro. A defesa recorreu, e Dino determinou que o caso fosse analisado pelo plenário do Supremo.
Para Sérgio Trein, professor de propaganda política da UFRGS, temas religiosos mobilizam sentimentos e símbolos pessoais, o que amplia o impacto de mensagens políticas. Beto Vasques, diretor de relações institucionais do Instituto Democracia em Xeque e professor da Fespsp, afirmou que o ambiente digital também impulsiona debates culturais e subjetivos.
Trein avaliou que a campanha tem sido marcada mais pela tentativa de destruir o adversário do que pela apresentação de propostas. Vasques disse que a religião é usada de forma recorrente em campanhas de desinformação política por seu forte apelo simbólico.








