O cuidado deve ser incorporado à agenda de desenvolvimento do Brasil, e não permanecer como uma obrigação privada das famílias. A avaliação é de Vera Carvalho Oliveira, mestra em políticas públicas pelo Insper, reconhecida como Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial e fundadora do Instituto C.
A autora sustenta que atividades como acompanhar crianças, idosos e pessoas com deficiência organizam a vida cotidiana e permitem que milhões de brasileiros trabalhem, estudem e produzam. Apesar disso, o cuidado ainda tem pouca presença nas políticas públicas e nas discussões econômicas.
Desigualdade racial, de gênero e renda
A distribuição dessas tarefas recai principalmente sobre as mulheres e está relacionada à formação social e econômica do país. Mulheres negras ocupam historicamente funções de cuidado em residências, comunidades e serviços essenciais, incluindo o trabalho doméstico remunerado ou não remunerado.
Embora correspondam a cerca de 28% da população brasileira, elas estão entre os grupos com menor renda, menor acesso ao ensino superior e maior exposição à pobreza, à informalidade e à violência. Dados do Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), mostram que a renda média por domicílio das mulheres negras é de aproximadamente R$ 1.402. O levantamento também indica que pessoas negras de ambos os sexos formam cerca de 80% dos 10% mais pobres do país.
A escolaridade também revela a desigualdade: somente 14% das mulheres negras concluem o ensino superior. Entre elas, mais de 2,8 milhões são analfabetas, enquanto aproximadamente 11,4 milhões não terminaram o ensino fundamental.
No mercado de trabalho, dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apontam que, em 2023, 3,6 milhões de mulheres pretas ou pardas estavam fora da força de trabalho. Entre as mulheres brancas, eram 1,5 milhão.
Em 2025, 70% das famílias acompanhadas pelo Instituto C eram autodeclaradas pretas ou pardas. Para Vera, esses indicadores também precisam ser examinados pelo impacto econômico da concentração do cuidado sobre um grupo específico da população.
Quando mulheres deixam o mercado de trabalho por falta de apoio para cuidar de filhos e familiares, há perda de produtividade. O afastamento da formação profissional reduz a renda atual e futura das famílias, enquanto falhas na proteção social podem elevar os custos dos sistemas de saúde, assistência e Previdência.
Política Nacional de Cuidados
A aprovação da Política Nacional de Cuidados, em 2024, ampliou o espaço dessa discussão. A política reconhece o cuidado como um direito e prevê a articulação entre Estado, famílias, setor privado e sociedade civil.
A efetividade da iniciativa, porém, depende de financiamento contínuo, coordenação entre os diferentes níveis de governo e metas que convertam as diretrizes nacionais em serviços acessíveis nos territórios. A proposta é que a economia do cuidado seja considerada parte das políticas de desenvolvimento.
A análise também relaciona cuidado e ampliação de oportunidades. No acompanhamento de famílias em situação de vulnerabilidade social, o Instituto C identifica uma sequência em que o acesso a direitos, a autoestima, a autonomia e as redes de apoio aparecem antes da melhora da renda.
Em 2025, 95% das famílias atendidas ampliaram o acesso a direitos e serviços públicos; 82% desenvolveram maior autonomia; 78% fortaleceram a autoestima; 87% ampliaram a rede de apoio; 81% adotaram hábitos alimentares mais saudáveis; 66% aumentaram a participação na vida escolar de crianças e adolescentes; e 42% registraram aumento de renda, com crescimento médio de 105%.
A avaliação é que a redução das desigualdades não depende apenas de transferência de renda ou de geração de empregos. Também exige investimento em capacidades humanas, fortalecimento dos vínculos familiares, acesso à informação e garantia de direitos.
O enfrentamento do problema, segundo a análise, precisa envolver educação, saúde, trabalho, habitação, segurança pública e desenvolvimento econômico, além da assistência social. Governos, organizações da sociedade civil, empresas, academia e organismos internacionais também devem atuar de forma articulada.
A conclusão é que desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano estão relacionados. O cuidado, nessa perspectiva, precisa deixar de ser tratado como responsabilidade privada e passar a integrar uma agenda estratégica nacional.








