RIO DE JANEIRO — A Polícia Federal investiga a destinação de uma emenda parlamentar de Flávio Bolsonaro a um projeto esportivo no bairro Taquara, no Rio de Janeiro. O recurso, de R$ 200 mil, foi enviado ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop) após tratativas entre a assessora do senador, Maria de Fátima Bezerra Castro, e Robson Calixto, conhecido como “Peixe”.
Calixto foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em fevereiro de 2026, pelos assassinatos de Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. A PF afirma haver indícios de desvio de recursos de emendas. Flávio nega irregularidades e diz que a destinação seguiu critérios técnicos do Ministério do Esporte. O senador também afirma que a execução do dinheiro é responsabilidade da entidade beneficiada.
O destino da emenda
O Ifop mantém o projeto social Jogadores do Futuro, voltado à inserção de crianças no futebol. A entidade recebeu o recurso em 23 de novembro de 2023, depois de um pedido feito por Calixto à assessora de Flávio. As conversas, segundo a investigação, ocorreram de outubro de 2023 a fevereiro de 2024.
Em relatório, o Tribunal de Contas da União apontou irregularidades em contratações realizadas com o dinheiro. Entre elas está um contrato com o escritório de advocacia de Rômulo Oliveira Alves, presidente do Ifop, sem relação com o projeto esportivo. O TCU classificou a situação como “inusitada”, porque Alves administrava o recurso público e também era beneficiário indireto da contratação.
Calixto trabalhava com Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Rio quando negociou a emenda. Ele foi citado na delação de Ronnie Lessa, que afirmou ter recebido dele uma submetralhadora usada no assassinato de Marielle. Os irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão foram apontados como mandantes do crime.
Relações anteriores
Flávio também homenageou o policial militar Adriano da Nóbrega quando era deputado estadual. Em 2003, apresentou uma moção de louvor a Nóbrega. Em 2005, propôs que ele recebesse a medalha Tiradentes, enquanto o policial estava preso por homicídio.
Nóbrega foi posteriormente apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e como um dos chefes do chamado Escritório do Crime. Ele morreu em 2020, em confronto com policiais na Bahia. Flávio afirmou, durante sabatina na campanha de 2026, que fez as homenagens quando Nóbrega era reconhecido como policial e antes das acusações sobre sua participação em milícias.
O então deputado também empregou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a esposa e a mãe de Nóbrega. Danielle Mendonça e Raimunda Veras Magalhães foram exoneradas em 2018, quando Flávio foi eleito para o Senado e se tornaram públicas suspeitas de desvio de verbas em seu gabinete na Alerj.
Em 2008, durante o debate sobre a CPI das Milícias, Flávio apoiou a instalação do colegiado, mas declarou que grupos paramilitares se organizavam para impedir o avanço do tráfico nessas regiões.
Avaliação sobre a candidatura
Para o professor José Cláudio Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a nova investigação reforça a associação entre Flávio e uma base política que aceita vínculos com estruturas milicianas. A cientista política Camila Rocha, diretora científica do Centro para Imaginação Crítica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, avalia que o episódio pode aumentar a rejeição ao candidato entre eleitores indecisos.
Camila afirma que acusações relacionadas à criminalidade violenta são um diferencial negativo atribuído a Flávio por esse grupo de eleitores. Para José Cláudio, a combinação entre vínculos com estruturas legais e ilegais ajuda a explicar por que relações com milicianos não afastam toda a base política do senador.








