São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Brasil

Crise energética e violência aceleram desmatamento no Haiti

Furacão, falta de apoio público, gangues e dependência de carvão vegetal ampliam a pressão sobre florestas e agricultores haitianos.

Crise energética e violência aceleram desmatamento no Haiti

A crise energética e a falta de apoio estatal estão levando agricultores e moradores do Haiti a recorrer cada vez mais à lenha e ao carvão vegetal. O corte de árvores se intensificou após a passagem do furacão Melissa pelo Caribe, em outubro de 2025, e se soma à violência de gangues, à insegurança alimentar e à fragilidade das instituições públicas.

Jean Noel, produtor de Fond-Cochon, no oeste do país, cultiva bananas, milho, inhame e mandioca há mais de 30 anos. O furacão destruiu vários hectares de suas plantações e dezenas de árvores frutíferas. Sem outra fonte de renda, ele passou a transformar árvores em carvão vegetal.

Patrick Innocent, prefeito de Roseaux, município ao qual Fond-Cochon pertence, relatou aumento significativo no corte de árvores nos meses seguintes ao furacão. Segundo ele, a atividade está ligada principalmente à produção de carvão, uma das principais fontes de energia doméstica do Haiti. Innocent também afirmou que quase mil moradores perderam plantações de hortaliças e que o município não tem recursos para ajudá-los.

Desastres e perda de florestas

A região de Grand Sud, no sudoeste haitiano, foi atingida por inundações, deslizamentos de terra e mudanças nas margens dos rios, embora o país não tenha recebido o impacto direto do furacão Melissa. A Secretaria Permanente de Gestão de Riscos de Desastres do Haiti registrou 43 mortes, 21 pessoas feridas e 13 desaparecidas. Quase 16 mil pessoas foram acolhidas em centros de evacuação, principalmente nos departamentos de Sud, Nippes e Grand’Anse.

A falta de apoio de longo prazo após o desastre levou moradores a adotar práticas que agravam o desmatamento, como o corte ilegal de árvores para produzir carvão e a agricultura baseada no corte e na queima. Em Saint-Michel de L’Attalaye, no departamento de Artibonite, moradores alertam para a derrubada em massa de árvores frutíferas, especialmente mangueiras.

David Noncent, especialista haitiano em mudanças climáticas e ciências ambientais, classificou o cenário como uma sobreposição de crises ecológicas. As estimativas disponíveis indicam que 3,2 mil hectares de floresta tropical primária foram destruídos entre 2002 e 2025, o equivalente a 4% da cobertura vegetal do Haiti, conforme o Global Nature Watch.

A dependência de combustíveis de origem vegetal é elevada. Um relatório do Fundo Verde para o Clima indicou que apenas um terço dos domicílios haitianos tinha acesso à eletricidade no início da década passada. Em 2023, lenha e carvão vegetal respondiam por mais de 75% da demanda energética do país, segundo o Departamento de Minas e Energia do Haiti.

Violência e ausência do Estado

O Haiti enfrenta desde 2018 uma crise humanitária, política e de segurança. Os protestos contra o aumento dos combustíveis evoluíram para tentativas de derrubar o governo, enquanto gangues ampliaram o controle sobre partes do território. A situação se agravou após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021.

A Organização das Nações Unidas estima que cerca de 1,4 milhão de pessoas tenham sido deslocadas dentro do país. O Programa Mundial de Alimentos calcula que mais de 5 milhões estejam em insegurança alimentar.

As últimas eleições ocorreram em 2016, e os mandatos chegaram ao fim. O governo é comandado pelo primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, nomeado por um conselho de transição. Em 2024, foi criado um Conselho Presidencial de Transição com nove membros, com apoio da Comunidade do Caribe e de parceiros internacionais. Novas eleições estão marcadas para dezembro.

A expansão das gangues para além de Porto Príncipe interrompe rotas humanitárias e comerciais, destrói propriedades agrícolas e reduz a capacidade das instituições de prestar serviços básicos. Um relatório do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários apontou a existência de 200 gangues atuantes no país em 2022.

Moradores de Kenscoff, cidade próxima a Porto Príncipe, afirmam que grupos armados exploram plantações, gado e recursos naturais. A violência também dificulta o trabalho de agricultores e o acesso às terras.

Áreas protegidas sob pressão

Kenscoff é uma das principais entradas do Parque Nacional La Visite. A presença de gangues nessas áreas impede o trabalho de instituições ambientais e favorece a exploração de recursos. A Agência Nacional de Áreas Protegidas é responsável pela gestão de cerca de 20 unidades, mas opera sob limitações de acesso e fiscalização.

A agência também enfrenta dificuldades para proteger áreas ocupadas por coalizões como Viv Ansanm e 400 Mawozo. Parques nacionais como Forêt des Pins e La Visite foram convertidos, em diferentes pontos, em áreas de produção de carvão, terras agrícolas ou assentamentos informais.

Criada em janeiro de 2006, a Brigada de Vigilância das Áreas Protegidas cresceu para vários milhares de oficiais. A instituição, porém, foi acusada de corrupção, abuso de poder, contrabando, sequestro e repressão contra civis. O Ministério do Meio Ambiente apontou problemas como falta de controle institucional, estruturas de comando pouco claras e mecanismos insuficientes de prestação de contas.

A colaboração entre a brigada e as forças de segurança foi anunciada pelo conselho de transição presidencial em abril de 2025. A medida previa a convocação de integrantes selecionados para reforçar a segurança pública. Para moradores próximos ao Parque Nacional La Visite, contudo, os agentes responsáveis pela vigilância quase não aparecem na região.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Receba nossa newsletterUma seleção diária, direto na sua caixa de entrada.

As mais lidas

  1. 1
  2. 2
  3. 3
  4. 4
  5. 5