HAITI — A crise energética e a falta de apoio estatal estão levando agricultores e moradores do Haiti a recorrer cada vez mais à lenha e ao carvão vegetal. O corte de árvores se intensificou após a passagem do furacão Melissa pelo Caribe, em outubro de 2025, e se soma à violência de gangues, à insegurança alimentar e à fragilidade das instituições públicas.
Jean Noel, produtor de Fond-Cochon, no oeste do país, cultiva bananas, milho, inhame e mandioca há mais de 30 anos. O furacão destruiu vários hectares de suas plantações e dezenas de árvores frutíferas. Sem outra fonte de renda, ele passou a transformar árvores em carvão vegetal.
Patrick Innocent, prefeito de Roseaux, município ao qual Fond-Cochon pertence, relatou aumento significativo no corte de árvores nos meses seguintes ao furacão. Segundo ele, a atividade está ligada principalmente à produção de carvão, uma das principais fontes de energia doméstica do Haiti. Innocent também afirmou que quase mil moradores perderam plantações de hortaliças e que o município não tem recursos para ajudá-los.
Desastres e perda de florestas
A região de Grand Sud, no sudoeste haitiano, foi atingida por inundações, deslizamentos de terra e mudanças nas margens dos rios, embora o país não tenha recebido o impacto direto do furacão Melissa. A Secretaria Permanente de Gestão de Riscos de Desastres do Haiti registrou 43 mortes, 21 pessoas feridas e 13 desaparecidas. Quase 16 mil pessoas foram acolhidas em centros de evacuação, principalmente nos departamentos de Sud, Nippes e Grand’Anse.
A falta de apoio de longo prazo após o desastre levou moradores a adotar práticas que agravam o desmatamento, como o corte ilegal de árvores para produzir carvão e a agricultura baseada no corte e na queima. Em Saint-Michel de L’Attalaye, no departamento de Artibonite, moradores alertam para a derrubada em massa de árvores frutíferas, especialmente mangueiras.
David Noncent, especialista haitiano em mudanças climáticas e ciências ambientais, classificou o cenário como uma sobreposição de crises ecológicas. As estimativas disponíveis indicam que 3,2 mil hectares de floresta tropical primária foram destruídos entre 2002 e 2025, o equivalente a 4% da cobertura vegetal do Haiti, conforme o Global Nature Watch.
A dependência de combustíveis de origem vegetal é elevada. Um relatório do Fundo Verde para o Clima indicou que apenas um terço dos domicílios haitianos tinha acesso à eletricidade no início da década passada. Em 2023, lenha e carvão vegetal respondiam por mais de 75% da demanda energética do país, segundo o Departamento de Minas e Energia do Haiti.
Violência e ausência do Estado
O Haiti enfrenta desde 2018 uma crise humanitária, política e de segurança. Os protestos contra o aumento dos combustíveis evoluíram para tentativas de derrubar o governo, enquanto gangues ampliaram o controle sobre partes do território. A situação se agravou após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021.
A Organização das Nações Unidas estima que cerca de 1,4 milhão de pessoas tenham sido deslocadas dentro do país. O Programa Mundial de Alimentos calcula que mais de 5 milhões estejam em insegurança alimentar.
As últimas eleições ocorreram em 2016, e os mandatos chegaram ao fim. O governo é comandado pelo primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, nomeado por um conselho de transição. Em 2024, foi criado um Conselho Presidencial de Transição com nove membros, com apoio da Comunidade do Caribe e de parceiros internacionais. Novas eleições estão marcadas para dezembro.
A expansão das gangues para além de Porto Príncipe interrompe rotas humanitárias e comerciais, destrói propriedades agrícolas e reduz a capacidade das instituições de prestar serviços básicos. Um relatório do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários apontou a existência de 200 gangues atuantes no país em 2022.
Moradores de Kenscoff, cidade próxima a Porto Príncipe, afirmam que grupos armados exploram plantações, gado e recursos naturais. A violência também dificulta o trabalho de agricultores e o acesso às terras.
Áreas protegidas sob pressão
Kenscoff é uma das principais entradas do Parque Nacional La Visite. A presença de gangues nessas áreas impede o trabalho de instituições ambientais e favorece a exploração de recursos. A Agência Nacional de Áreas Protegidas é responsável pela gestão de cerca de 20 unidades, mas opera sob limitações de acesso e fiscalização.
A agência também enfrenta dificuldades para proteger áreas ocupadas por coalizões como Viv Ansanm e 400 Mawozo. Parques nacionais como Forêt des Pins e La Visite foram convertidos, em diferentes pontos, em áreas de produção de carvão, terras agrícolas ou assentamentos informais.
Criada em janeiro de 2006, a Brigada de Vigilância das Áreas Protegidas cresceu para vários milhares de oficiais. A instituição, porém, foi acusada de corrupção, abuso de poder, contrabando, sequestro e repressão contra civis. O Ministério do Meio Ambiente apontou problemas como falta de controle institucional, estruturas de comando pouco claras e mecanismos insuficientes de prestação de contas.
A colaboração entre a brigada e as forças de segurança foi anunciada pelo conselho de transição presidencial em abril de 2025. A medida previa a convocação de integrantes selecionados para reforçar a segurança pública. Para moradores próximos ao Parque Nacional La Visite, contudo, os agentes responsáveis pela vigilância quase não aparecem na região.








