Filmes brasileiros de ficção científica produzidos entre o início dos anos 1960 e o fim da década seguinte são retomados pelo professor Alfredo Suppia como obras capazes de representar tensões políticas, dependência externa e fragilidade institucional no país. Entre os títulos analisados estão O Quinto Poder (1962), O Homem que Comprou o Mundo (1968), Manhã Cinzenta (1969), Brasil ano 2000 (1969), Parada 88: O Limite de Alerta (1978) e Abrigo Nuclear (1981).
Propaganda subliminar e conspiração internacional
Dirigido pelo italiano Alberto Pieralisi e roteirizado por Carlos Pedregal, O Quinto Poder acompanha um plano de dominação do Brasil por meio de mensagens subliminares transmitidas clandestinamente pelas redes de rádio e televisão. Na história, agentes estrangeiros tentam levar a população à violência e ao apoio a uma revolução.
O filme foi produzido pela Pedregal Filmes e é descrito por Suppia como uma obra pouco conhecida, embora apresente cenas no bondinho do Pão de Açúcar e um desfecho no Corcovado. A trama se inspira no imaginário criado em torno de um experimento atribuído a James Vicary nos Estados Unidos, durante exibições de Férias de Amor (Picnic), de Joshua Logan, no Fort Lee Theater, em Nova Jersey.
Segundo o relato apresentado no texto, anúncios com as frases “coma pipocas” e “beba Coca-Cola” teriam sido projetados 12 vezes por minuto, com duração inferior a três milésimos de segundo. Reedições do experimento, porém, lançaram dúvidas sobre a eficácia da propaganda subliminar.
Para Suppia, a tecnologia de comunicação apresentada no filme pode ser comparada, em uma leitura contemporânea, ao uso de algoritmos e redes sociais para disseminar narrativas e influenciar atores locais. O professor afirma que a obra já foi associada ao golpe militar de 1964 e que seu enredo pode ser lido hoje em relação a debates sobre desinformação, financiamento estrangeiro e captura institucional.
Outros filmes do período
Em O Homem que Comprou o Mundo, Eduardo Coutinho acompanha um homem comum envolvido contra a própria vontade em uma trama internacional ambientada durante a Guerra Fria. A produção combina espionagem, ficção científica e comédia, apresentando um personagem submetido a um jogo geopolítico que não controla.
Manhã Cinzenta, curta-metragem de Olney São Paulo lançado em 1969, imagina um futuro em que a ditadura militar utiliza robôs e inteligência artificial para julgar e reprimir jovens que se rebelam contra o sistema. O texto também menciona a prisão do diretor durante os acontecimentos ligados ao filme.
Outras obras, como Parada 88: O Limite de Alerta, de José de Anchieta, e Abrigo Nuclear, de Roberto Pires, são apresentadas como exemplos de produções que recorreram à ficção científica para abordar temas que não poderiam ser tratados diretamente durante a ditadura militar.
Uma leitura sobre o presente
A análise relaciona essas obras ao conceito de “alegoria do subdesenvolvimento”, desenvolvido por Ismail Xavier no livro Alegorias do Subdesenvolvimento (1993). Para Suppia, a ficção científica brasileira funcionou como uma forma de tratar, por meio de códigos indiretos, os conflitos entre modernização e arcaísmo, desenvolvimento e dependência externa.
O professor também associa o resgate dos filmes ao cenário político de 2026, marcado, segundo sua avaliação, por ataques ao Supremo Tribunal Federal, desinformação organizada e suspeitas de financiamento estrangeiro de institutos, juristas e políticos. Essas afirmações aparecem como interpretação do autor sobre a conjuntura e sobre a atualidade dos filmes.
Suppia é professor associado do Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação do Instituto de Artes da Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas.








