A ascensão da ultradireita e as mudanças provocadas por essa força na política contemporânea são o tema de cinco livros recomendados pelo escritor e jornalista João Gabriel de Lima. As obras tratam do avanço de lideranças personalistas, da influência das redes sociais, do enfraquecimento dos partidos e das tensões entre grupos políticos.
Para Lima, as democracias passaram a ser disputadas por três campos majoritários. Além da direita e da esquerda tradicionais, surgiu uma força à direita do espectro político, com agenda e práticas próprias. O fenômeno é observado em Portugal, Espanha, Alemanha, França, Reino Unido e no Parlamento Europeu.
A ultradireita forma partidos, disputa eleições e influencia o debate mesmo quando não vence, ao conquistar cadeiras nos parlamentos. A seleção reúne estudos sobre as causas desse avanço, seus métodos e seus efeitos sobre as instituições.
O povo contra a democracia
Yascha Mounk, com tradução de Cássio de Arantes Leite e Débora Landsberg, Companhia das Letras, 2019.
O cientista político alemão examina as táticas dos populistas, como a escolha de um inimigo e a divisão da sociedade em dois campos. Para Mounk, essas práticas enfraquecem o pluralismo das democracias e ajudam a explicar uma crise dos regimes de liberdade.
O autor propõe três caminhos: domesticar o nacionalismo, consertar a economia e renovar a fé cívica. O livro aborda temas complexos em linguagem simples.
Como as democracias morrem
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, com tradução de Renato Aguiar, Zahar, 2018.
A obra analisa a transformação de regimes democráticos sem o recurso necessário a golpes de Estado e tanques na rua. No cenário descrito pelos autores, a ruptura pode ocorrer pela ação de um líder populista eleito democraticamente.
O livro trata de casos na Hungria, na Índia, na Polônia, no Brasil e nos Estados Unidos, onde governantes de perfil autocrático atentaram contra instituições e enfraqueceram a democracia. Os autores também escreveram “Como salvar as democracias”, sobre as possibilidades de recuperação após a não reeleição desses líderes.
A extrema direita hoje
Cas Mudde, com tradução de João Marcos E. D. de Souza, Eduerj, 2022.
O holandês radicado nos Estados Unidos diferencia a direita radical da extrema direita. A primeira defende posições anti-imigração, antifeministas, anti-LGBTQIA+, antipluralistas e nacionalistas dentro da lógica dos regimes democráticos.
A extrema direita também participa de eleições, mas, segundo a definição apresentada no livro, busca corroer a democracia por dentro. Os dois grupos integram a ultradireita, termo mais amplo para esse campo político.
Presidentialism and Civil-Military Relations
Octavio Amorim Neto e Igor Acacio, Palgrave Macmillan, 2025.
O livro examina as relações entre civis e militares em democracias e sustenta que regimes presidencialistas estão mais sujeitos a golpes militares do que regimes parlamentaristas. A obra inclui um estudo de caso sobre o governo de Jair Bolsonaro e a presença de militares no Poder Executivo.
No auge do movimento promovido pelo ex-presidente, 40% dos ministros eram oriundos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Considerando todos os escalões, Bolsonaro chegou a colocar mais de 6.000 militares no governo. Para os autores, a militarização do Executivo foi decisiva na tentativa de golpe de Estado.
Por dentro do Chega: A face oculta da extrema direita em Portugal
Miguel Carvalho, penguin literaria, 2026.
O livro acompanha a formação e o desenvolvimento do Chega, partido que representa a ultradireita em Portugal. A sigla foi fundada em 2019 por André Ventura, que ganhou atenção com um discurso xenófobo contra a comunidade cigana e depois ampliado a imigrantes de diferentes nacionalidades.
A obra reúne entrevistas com eleitores de diversas classes sociais, incluindo militantes vindos de partidos de esquerda. O material aborda o alcance do discurso xenófobo e a atuação prática de uma sigla da direita radical.








