Ao mudar o foco de uma conversa para outra, o cérebro não interrompe imediatamente a primeira para acompanhar a segunda. Durante um intervalo de um a dois segundos, sinais neurais ligados às duas vozes se sobrepõem, de acordo com um estudo realizado por pesquisadores em parceria com o Eriksholm Research Centre, na Dinamarca, financiado pela fabricante de aparelhos auditivos Oticon.
O resultado ajuda a explicar como as pessoas conseguem acompanhar diálogos em ambientes barulhentos e reorientar a atenção quando uma voz familiar chama do outro lado de uma sala, uma porta bate ou outro som se destaca. A hipótese é que essa sobreposição mantenha informações suficientes sobre o interlocutor anterior para tornar a mudança menos perceptível.
A capacidade de selecionar uma conversa entre vários sons é conhecida como efeito coquetel. O fenômeno começou a ser investigado na década de 1950, quando o cientista cognitivo britânico Colin Cherry pediu a voluntários que ouvissem dois discursos ao mesmo tempo e repetissem apenas um deles. Os participantes acompanhavam com precisão a mensagem escolhida, mas se lembravam de pouco da outra.
O que acontece no cérebro
Pesquisas mais recentes passaram a reproduzir situações mais próximas da audição cotidiana, usando tecnologias capazes de monitorar a atividade cerebral enquanto a fala se desenvolve. Uma das técnicas empregadas é a eletroencefalografia, ou EEG, que utiliza uma touca equipada com pequenos sensores para medir mudanças rápidas na atividade elétrica de grupos de neurônios, com precisão de milissegundos.
Em um estudo de 2014, neurocientistas observaram que, até 200 milissegundos depois que alguém começa a falar, o cérebro prioriza a conversa escolhida em relação aos demais ruídos. O efeito aparece com mais intensidade em áreas cerebrais secundárias, como o giro temporal superior, associado à organização dos sons em uma fala compreensível.
Esses achados indicam que a atenção não apenas reforça a voz selecionada. Ela também contribui para a compreensão das palavras enquanto outras conversas e sons de fundo são filtrados.
Possíveis aplicações
A compreensão desse mecanismo pode orientar o desenvolvimento de aparelhos auditivos capazes de acompanhar mudanças rápidas de foco. Atualmente, esses dispositivos costumam priorizar sons vindos da frente do ouvinte. Técnicas de decodificação da atenção poderiam permitir que eles realçassem o interlocutor escolhido e alternassem entre diferentes vozes quase em tempo real.
O estudo também pode ajudar a investigar por que algumas conversas são mais fáceis de acompanhar do que outras em locais ruidosos. Os pesquisadores afirmam que a abordagem permite comparar estratégias de atenção entre indivíduos e relacioná-las ao esforço mental usado para compreender a fala.







