A maternidade envolve mudanças duradouras no cérebro, no corpo e na vida social, mas ainda é tratada como uma experiência simples, natural e principalmente hormonal, afirma a jornalista científica Lucy Jones. Mãe de três filhos, ela é autora de Matrescência: Sobre a metamorfose da gravidez, do parto e da maternidade, publicado em 2026 e semifinalista do Women’s Prize for Non-Fiction de 2024.
Jones diz que descobriu, ao investigar o tema, que a gravidez, o parto e os primeiros cuidados com o bebê podem modificar o cérebro em várias áreas. Essas alterações podem permanecer ao longo do tempo e ter intensidade comparável às transformações da adolescência. Ela também cita a presença de células do bebê no corpo da mãe e da mãe no corpo do bebê, fenômeno que ainda é estudado pela ciência.
O termo matrescência foi cunhado nos anos 1970 para descrever essa transição e aproximá-la, pela intensidade e duração das mudanças, da infância e da adolescência. Para Jones, a palavra oferece uma forma de nomear uma experiência que costuma permanecer escondida ou mal compreendida.
O cuidado não é instinto automático
A jornalista contesta a ideia de que o corpo feminino saiba, por instinto, como gestar, dar à luz e cuidar de uma criança. Ela relata ter sentido vontade imediata de proteger e amar a filha, mas afirma que precisou aprender como cuidar dela e identificar suas necessidades.
Segundo Jones, a gravidez e o parto reconfiguram o cérebro, possivelmente preparando a pessoa para manter um bebê vivo. Ainda assim, o cuidado também é aprendido por meio da convivência direta e afetuosa. Tratar essa tarefa como algo natural pode esconder sua complexidade, o esforço envolvido e a necessidade de compartilhá-la entre homens e mulheres.
Ela também afirma que a imagem da maternidade como felicidade permanente reduz uma experiência marcada por diferentes emoções e situações. Na avaliação de Jones, ampliar as representações culturais sobre a maternidade pode ajudar a mostrar seus conflitos e variações.
Apoio no pós-parto
Para enfrentar o isolamento vivido por muitas mulheres após o parto, Jones defende investimentos imediatos em assistência e apoio. Na Holanda, o programa Kraamzorg oferece em casa um número definido de horas de atendimento feito por uma enfermeira obstétrica. O serviço apoia a alimentação do bebê, a organização da casa, tarefas domésticas leves e o cuidado com a saúde física e emocional da mãe.
Jones relaciona esse tipo de suporte às diferenças nas taxas de depressão pós-parto. Na Holanda, o índice é de 8%; na Inglaterra, onde não existe um apoio social equivalente, varia entre 10% e 15%.
Ela também cita medidas urbanas e sociais, como áreas externas planejadas para famílias, bancos destinados ao descanso e à amamentação, fraldários em banheiros públicos de todos os gêneros e melhorias no transporte público. Licença parental mais ampla, trabalho flexível e serviços acessíveis de educação e cuidado infantil também são apontados como formas de apoio.
A pesquisadora Ruth Naughton-Doe, mencionada por Jones, identificou que tornar visíveis as dificuldades da gravidez e da parentalidade é parte importante da resposta à solidão perinatal. Para Jones, a expressão matrescência ajuda a criar uma linguagem para essa transição e permite que as pessoas perguntem como outras estão vivendo esse período.
Responsabilidade compartilhada
Jones afirma que mães, pais e responsáveis que não gestaram a criança devem ter acesso a cuidado, tratamento e apoio. Ela considera importante falar também sobre depressão pós-parto entre pais e parceiros que não passaram pela gestação, sem transformar essa discussão em uma escolha entre grupos.
A jornalista diz que a saúde mental perinatal ainda é pouco conhecida e observa que um grupo internacional de neurocientistas pesquisa as mudanças no cérebro de pais recentes. Para ela, reconhecer a dimensão biológica da chegada de um bebê para todos os cuidadores pode reduzir o estigma e ampliar a atenção ao tema.
A organização do trabalho também aparece como parte do problema. Jones defende que as economias priorizem o cuidado, o desenvolvimento e a vida, e não apenas o lucro. Ela afirma que os bebês dependem de múltiplos cuidadores e que mães, pais e outros responsáveis precisam se afastar do trabalho remunerado para cuidar deles.
Na Noruega, períodos de licença remunerada que precisam ser usados pelo pai ou são perdidos ajudam, segundo Jones, a reduzir o estigma associado ao afastamento profissional. Ela também cita Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca como países que adotam políticas de valorização do cuidado e da criação dos filhos e aparecem de forma consistente entre os mais felizes do mundo.
Depois do nascimento do primeiro filho, Jones afirma que levou dois anos para elaborar psicologicamente sua experiência de matrescência e considerar ter outra criança. Ela descreve a maternidade como uma fonte de prazer, estímulo intelectual, criatividade e alegria, mas critica a forma como a sociedade ocidental trata as mães recentes e não atribui valor suficiente ao trabalho de cuidar.







