A gestação e o pós-parto provocam mudanças profundas no corpo, no cérebro e na identidade, mas a saúde mental das mães só passou a receber mais atenção científica recentemente. Uma em cada 5 mulheres enfrenta problemas desse tipo durante a gravidez ou no primeiro ano após o parto. No Brasil, a proporção chega a 1 em cada 4, segundo a Fundação Oswaldo Cruz. Para quem já teve transtornos mentais, o risco aumenta em cinco vezes.
O que muda durante a gestação
A capacidade média do útero passa de 10 mililitros para 5 litros durante a gravidez. A carga hormonal pode ficar de 200 a 300 vezes maior nesse período e cai rapidamente no parto. Também ocorrem alterações nos ossos, nos ligamentos, na tolerância ao estresse e na interpretação de expressões faciais.
Esse conjunto de transformações é chamado de matrescência. O termo existe desde os anos 1970 e descreve mudanças físicas, psicológicas e sociais associadas à gravidez e ao início da maternidade. A comparação com a adolescência indica que a transição pode ser duradoura e significativa.
Pesquisas do projeto Be Mother, da Universidade Autônoma de Barcelona, associam a confusão mental e a amnésia da gestação à redução de massa cinzenta. O processo seria semelhante às podas neurais da adolescência e ajudaria a tornar a mãe mais atenta e responsiva às necessidades do bebê. Um estudo de 2022 sobre neuroplasticidade cerebral também apontou melhora na memória associativa espacial e na capacidade de aprendizado durante a gestação.
As alterações cerebrais e físicas podem deixar efeitos por décadas. Entre os fatores que afetam o bem-estar estão as consequências no assoalho pélvico e o sono fragmentado, que prejudica o funcionamento cognitivo e a recuperação física.
Sintomas, culpa e amamentação
A ansiedade e a depressão pós-parto podem incluir sintomas presentes em outros adoecimentos mentais. A privação crônica de sono, a frustração com a expectativa de felicidade e a falta de apoio podem agravar o sofrimento.
A amamentação também é fonte de pressão. Uma análise de 12 estudos publicada em 2024 ouviu quase 2 mil mulheres: 65% relataram leite empedrado, metade mencionou dores nos seios e uma em cada 4 teve dores ou lesões nos mamilos. Entre as mulheres que combinavam leite materno e fórmula, a culpa aparecia cerca de seis vezes mais do que entre aquelas que mantinham o aleitamento exclusivo.
A taxa brasileira de amamentação exclusiva até os seis meses é de 45,8%. Uma revisão da Universidade de Liverpool associou o descompasso entre o plano de amamentação e a realidade a maior culpa, à percepção de ser uma mãe ruim e a uma saúde mental mais fragilizada.
O parto também pode influenciar esse quadro, mas não apenas pela via escolhida. Uma meta-análise publicada em 2025, com 34 estudos realizados em 14 países, relacionou o risco de depressão e estresse pós-traumático ao grau de informação, respeito e participação da mulher nas decisões. Quanto menor o envolvimento, maior o risco.
Trabalho de cuidado e falta de apoio
O período de licença-maternidade no Brasil é de quatro meses, enquanto a recomendação da Organização Mundial da Saúde é de aleitamento exclusivo até os seis meses. Além disso, metade das mulheres é demitida em até dois anos após retornar da licença. As que continuam empregadas ganham 10% menos que mulheres sem filhos.
A divisão das tarefas também é desigual. Nos Estados Unidos, as mulheres dedicam cerca de 6,5 horas semanais a mais ao cuidado dos filhos. No Brasil, elas passam 9,6 horas por semana a mais que os homens em tarefas domésticas e de cuidado. Em um ano, a diferença chega a 500 horas.
A professora e pesquisadora Valeska Zanello, da Universidade de Brasília, afirma que a ideia de instinto materno é uma construção social. Para ela, a idealização da maternidade pode aumentar o sofrimento quando a experiência real não corresponde à expectativa. A escritora Vanessa Bárbara também relaciona a depressão pós-parto à privação de sono e à ausência de apoio.
Até a edição de 2026 da Caderneta da Gestante, produzida pelo Ministério da Saúde desde 2014, não havia referência específica à saúde mental no pré-natal e no pós-parto. Atualmente, o ministério diferencia o baby blues, considerado transitório, da depressão que exige apoio profissional e informa que o tratamento é gratuito pelo SUS. A Organização Mundial da Saúde publicou seu primeiro guia sobre saúde psíquica perinatal em 2022.
Para Valeska Zanello, nomear os sentimentos e ouvir as mães são medidas essenciais. A discussão também inclui pais e outros cuidadores: mudanças neurobiológicas ligadas ao vínculo e ao cuidado podem ocorrer em quem não gestou.
A defesa de especialistas citados inclui licença parental mais ampla, trabalho flexível, serviços de educação e cuidado infantil acessíveis e espaços públicos planejados para famílias. A saúde mental no pós-parto, nesse entendimento, depende tanto da compreensão científica da matrescência quanto da forma como a sociedade distribui e valoriza o trabalho de cuidado.







