O acesso contínuo às apostas pelo celular pode favorecer a repetição do jogo e dificultar a interrupção do comportamento. Esse padrão está associado à ludopatia, também chamada de transtorno do jogo, uma condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Ao assinar nesta sexta-feira (25) uma Medida Provisória que proíbe todos os tipos de Bets, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que as apostas online “estão destruindo as famílias”. Ele também declarou que a expansão das plataformas tem comprometido a renda familiar, provocado problemas de saúde mental e levado sofrimento para dentro das casas.
Quando apostar se torna um transtorno
A ludopatia é marcada pela dificuldade persistente de controlar as apostas, mesmo quando elas provocam perdas financeiras ou prejuízos na vida familiar, profissional e social. O diagnóstico considera a continuidade do comportamento e os danos causados pelo jogo.
Um dos sinais de alerta é o aumento progressivo do valor apostado para alcançar a mesma sensação de excitação. Irritação ou inquietação ao tentar diminuir ou interromper as apostas também podem indicar perda de controle.
A preocupação constante com o jogo é outro indício. A pessoa pode ocupar grande parte do dia pensando em apostas ou procurando dinheiro para continuar jogando. Também é comum tentar recuperar o que foi perdido com novas apostas, comportamento conhecido como “perseguir o prejuízo”. Essa estratégia pode ampliar as perdas e manter o apostador em um ciclo difícil de interromper.
A ocultação do problema é mais um sinal. O apostador pode mentir a familiares ou pessoas próximas sobre o valor das apostas e o tamanho dos prejuízos. Com o avanço do transtorno, trabalho, estudos, relacionamentos e convivência social podem ser afetados.
Por que o celular aumenta a exposição
As plataformas digitais ficam disponíveis permanentemente. Com um celular conectado à internet, é possível fazer novas apostas sem comparecer a um estabelecimento e sem interromper a rotina. Essa facilidade reduz barreiras de acesso e permite passar rapidamente de uma aposta para outra.
O comportamento não depende necessariamente de vitórias. A expectativa de ganhar pode ativar o sistema de recompensa do cérebro e provocar a liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado à motivação e à sensação de recompensa. Uma situação próxima da vitória também pode alimentar a expectativa de que o próximo resultado será favorável.
A repetição pode diminuir o controle sobre o jogo. Alterações em áreas cerebrais ligadas ao planejamento, à avaliação de riscos e ao controle dos impulsos podem dificultar a interrupção das apostas, inclusive diante de perdas financeiras significativas.
Consequências para a saúde e a rotina
Os efeitos podem ultrapassar o prejuízo financeiro. A ludopatia pode estar associada à depressão, à ansiedade e a problemas relacionados ao sono. Em situações mais graves, existe a possibilidade de ideação suicida.
Salários, economias e recursos destinados a despesas básicas podem ser usados em apostas na tentativa de recuperar perdas ou obter um ganho rápido. O endividamento pode atingir a família e contribuir para a deterioração das relações familiares.
O problema também pode chegar ao trabalho. Funcionários podem apostar durante o expediente, perder concentração e produtividade ou enfrentar dificuldades financeiras e psicológicas relacionadas ao jogo. Quando o comportamento é reconhecido como manifestação de uma doença, o caso pode exigir tratamento e acompanhamento médico, em vez de uma resposta apenas disciplinar. A avaliação depende das circunstâncias e das normas aplicáveis à relação de trabalho.
Como buscar ajuda
Parar de apostar pode exigir mais do que uma decisão individual. O tratamento costuma incluir acompanhamento psicológico e, quando necessário, psiquiátrico.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das abordagens usadas. Ela ajuda a identificar pensamentos e comportamentos ligados ao jogo e a desenvolver estratégias para lidar com situações que despertam a vontade de apostar.
O acompanhamento psiquiátrico pode ser indicado quando há outros transtornos associados. Medicamentos podem ser usados conforme a avaliação médica, especialmente em casos de depressão, ansiedade ou dificuldades relacionadas ao controle dos impulsos.
Grupos de apoio também podem integrar a recuperação. Os Jogadores Anônimos mantêm grupos para pessoas que desejam interromper o comportamento de apostar e oferecem espaços para compartilhar experiências.
O controle financeiro é outra medida possível. Em algumas situações, familiares ou pessoas de confiança podem ajudar a limitar o acesso ao dinheiro e acompanhar as despesas durante o início do tratamento.
A busca por avaliação profissional é indicada quando as apostas deixam de ser ocasionais e passam a interferir nas finanças, nos relacionamentos, no trabalho ou na saúde mental.







