A inteligência artificial pode aumentar de forma expressiva a quantidade de tarefas realizadas por cada trabalhador, mas também reduzir o valor econômico produzido por trabalhador, segundo Yanis Varoufakis. Para o economista, essa aparente contradição está no centro do debate sobre os efeitos da tecnologia e resulta de duas formas diferentes de medir a produtividade.
Quando o indicador é a quantidade de tarefas executadas por unidade de trabalho humano, a IA tende a apresentar resultados elevados. Se a avaliação considera o valor monetário gerado por trabalhador, porém, o efeito pode ser negativo. Na análise de Varoufakis, isso ocorreria porque a tecnologia pode eliminar empregos assalariados e transferir ganhos dos mercados para as rendas obtidas pelos proprietários das grandes plataformas digitais.
As revoluções tecnológicas anteriores destruíram ocupações, setores e comunidades, mas também criaram novas atividades e ampliaram a produção material. O autor afirma que a inteligência artificial pode seguir outro caminho, principalmente no Ocidente, onde agentes de IA estão sendo incorporados a serviços como comércio eletrônico, departamentos administrativos, escritórios de advocacia e hospitais.
Dois efeitos sobre os mercados
Varoufakis identifica dois mecanismos capazes de reduzir o espaço dos mercados. O primeiro seria a eliminação de profissões inteiras, como as de assistentes jurídicos, programadores, tradutores e contadores. Também poderiam ser afetados arquitetos, matemáticos e professores. Na avaliação apresentada, os novos postos ligados à tecnologia — como criação de comandos, supervisão, engenharia e operação — seriam menos numerosos.
O segundo mecanismo seria a transformação de mercados em estruturas controladas por plataformas digitais. A Amazon é usada como exemplo: apesar de reunir compradores e vendedores, a empresa teria decisões centralizadas por algoritmos. Nesse modelo, os lucros dos vendedores poderiam ser convertidos em rendas destinadas aos proprietários da infraestrutura tecnológica.
O texto também menciona a integração crescente de sistemas como Alexa, da Amazon, Siri, da Apple, e Gemini, do Google. Essas ferramentas poderiam deixar de atuar apenas como assistentes de compras e assumir funções de companhia, aconselhamento e terapia, ampliando o poder econômico das empresas que as controlam.
Para Varoufakis, a concentração de renda da nuvem, somada à redução dos salários agregados, poderia derrubar as taxas de lucro das empresas capitalistas e provocar um colapso sistêmico. Ele afirma que medidas como flexibilização quantitativa, renda básica universal e imposto sobre o patrimônio não seriam suficientes para impedir esse resultado.
O economista sustenta que a questão sobre a capacidade da IA de gerar ganhos de produtividade já tem resposta positiva. O problema, em sua avaliação, é que esses ganhos podem coexistir com a queda do valor do trabalho. Para evitar essa distorção, seria necessário separar o volume de tarefas realizadas do valor monetário produzido por cada trabalhador.








