Uma pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) usa obras de Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Sérgio Vaz para investigar como políticas urbanas expulsaram populações pobres de áreas valorizadas de grandes cidades. O estudo será publicado na Revista Brasileira de História em 18 de setembro.
A análise relaciona literatura, História e estudos urbanísticos para examinar efeitos das remoções que não foram registrados de forma completa por censos e mapeamentos. Entre eles estão o rompimento de laços de vizinhança e a perda de redes de apoio comunitário.
Os autores de “Favelas brasileiras: trajetórias históricas, três obras literárias (1960-2016)” compararam os livros com fontes históricas e dados demográficos. O objetivo foi usar relatos em primeira pessoa para reconstituir a experiência de moradores durante a formação das periferias brasileiras.
Três obras e diferentes momentos
O estudo analisa “Quarto de Despejo”, diário de Carolina Maria de Jesus publicado em 1960 sobre a favela do Canindé, em São Paulo; “Becos da Memória”, de Conceição Evaristo, ambientado em uma favela em processo de remoção e relacionado pela crítica à experiência da autora em Belo Horizonte nos anos 1970; e “Flores de Alvenaria”, de Sérgio Vaz, dedicado à periferia paulistana contemporânea.
A leitura dos livros identifica três momentos que se acumulam. O primeiro é marcado pela luta imediata pela sobrevivência em áreas negligenciadas. Depois, aparecem o trauma das remoções e o apagamento de memórias provocados pela destruição das favelas e por políticas orientadas por lógicas higienistas. Nas obras mais recentes, ganha espaço a afirmação política e o orgulho territorial, com maior circulação e organização coletiva da produção cultural periférica.
Manoela Massuchetto Jazar, professora da PUCPR e uma das autoras, afirma que a literatura registra dimensões da experiência urbana que os levantamentos oficiais não alcançam: “A literatura mostra como determinadas decisões urbanas são vividas por quem está do outro lado delas”.
“Cidades incipientes”
Para descrever a trajetória observada nos livros, os pesquisadores propõem chamar essas áreas de “cidades incipientes”. Segundo Jazar, a expressão indica territórios em processo de consolidação, urbanização e integração ao restante da cidade, sem defini-los apenas pela falta, pela irregularidade ou pelo desvio em relação a um modelo ideal.
A escolha do termo também tem relação com o planejamento habitacional. A pesquisa afirma que projetos de moradias populares podem não responder à realidade dos moradores quando ignoram a dinâmica comunitária das favelas. Para Jazar, esses territórios reúnem vínculos, solidariedades, formas de organização e modos de vida que não podem ser simplesmente desfeitos e substituídos por uma unidade habitacional em outro local.
A proposta dos pesquisadores é incorporar memória afetiva e redes de apoio ao planejamento urbano e considerar os moradores como sujeitos de direito. A pesquisa sustenta que políticas habitacionais devem partir das relações e das formas de organização já construídas nesses territórios.








