São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Brasil

Literatura revela impactos das remoções na formação das periferias brasileiras

Pesquisa da PUCPR analisa três obras literárias como registros das remoções e de seus efeitos sobre comunidades pobres.

Literatura revela impactos das remoções na formação das periferias brasileiras

Uma pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) usa obras de Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Sérgio Vaz para investigar como políticas urbanas expulsaram populações pobres de áreas valorizadas de grandes cidades. O estudo será publicado na Revista Brasileira de História em 18 de setembro.

A análise relaciona literatura, História e estudos urbanísticos para examinar efeitos das remoções que não foram registrados de forma completa por censos e mapeamentos. Entre eles estão o rompimento de laços de vizinhança e a perda de redes de apoio comunitário.

Os autores de “Favelas brasileiras: trajetórias históricas, três obras literárias (1960-2016)” compararam os livros com fontes históricas e dados demográficos. O objetivo foi usar relatos em primeira pessoa para reconstituir a experiência de moradores durante a formação das periferias brasileiras.

Três obras e diferentes momentos

O estudo analisa “Quarto de Despejo”, diário de Carolina Maria de Jesus publicado em 1960 sobre a favela do Canindé, em São Paulo; “Becos da Memória”, de Conceição Evaristo, ambientado em uma favela em processo de remoção e relacionado pela crítica à experiência da autora em Belo Horizonte nos anos 1970; e “Flores de Alvenaria”, de Sérgio Vaz, dedicado à periferia paulistana contemporânea.

A leitura dos livros identifica três momentos que se acumulam. O primeiro é marcado pela luta imediata pela sobrevivência em áreas negligenciadas. Depois, aparecem o trauma das remoções e o apagamento de memórias provocados pela destruição das favelas e por políticas orientadas por lógicas higienistas. Nas obras mais recentes, ganha espaço a afirmação política e o orgulho territorial, com maior circulação e organização coletiva da produção cultural periférica.

Manoela Massuchetto Jazar, professora da PUCPR e uma das autoras, afirma que a literatura registra dimensões da experiência urbana que os levantamentos oficiais não alcançam: “A literatura mostra como determinadas decisões urbanas são vividas por quem está do outro lado delas”.

“Cidades incipientes”

Para descrever a trajetória observada nos livros, os pesquisadores propõem chamar essas áreas de “cidades incipientes”. Segundo Jazar, a expressão indica territórios em processo de consolidação, urbanização e integração ao restante da cidade, sem defini-los apenas pela falta, pela irregularidade ou pelo desvio em relação a um modelo ideal.

A escolha do termo também tem relação com o planejamento habitacional. A pesquisa afirma que projetos de moradias populares podem não responder à realidade dos moradores quando ignoram a dinâmica comunitária das favelas. Para Jazar, esses territórios reúnem vínculos, solidariedades, formas de organização e modos de vida que não podem ser simplesmente desfeitos e substituídos por uma unidade habitacional em outro local.

A proposta dos pesquisadores é incorporar memória afetiva e redes de apoio ao planejamento urbano e considerar os moradores como sujeitos de direito. A pesquisa sustenta que políticas habitacionais devem partir das relações e das formas de organização já construídas nesses territórios.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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