SÃO PAULO — A mudança no tratamento da aids é narrada em Indetectável a partir da experiência de Celsim P.S. com o irmão Dionísio, que morreu durante a epidemia de HIV no Brasil. O livro reúne lembranças, cartas e reflexões sobre a comunidade LGBTI+, a doença e a produção artística de uma geração marcada por perdas.
A obra contrapõe duas cartas. A primeira foi escrita por Dionísio em 7 de novembro de 1994, durante uma internação. Ele relata o cancelamento de uma apresentação na Alemanha, o longo período de sono e o medo de morrer sozinho. Também recorda uma visita a Niterói, no Rio de Janeiro, quando os irmãos conversaram à beira-mar e Celsim cantou “Surabaya Johnny”, de Brecht e Weill.
No hospital, Dionísio estava em um quarto coletivo. Segundo a carta, um médico e algumas enfermeiras demonstravam medo da aids dos pacientes. A mãe não conseguia visitá-lo porque estava doente, enquanto a irmã e Carmem se revezavam para acompanhá-lo; Norma permanecia durante a noite.
A carta termina com uma pergunta interrompida sobre a possibilidade de o irmão também estar doente e uma despedida: “Te amarei eternamente, e ainda depois”. Dionísio assina como Gal e Dindi.
O remédio e a memória
A segunda carta é datada de São Paulo, 13 de dezembro de 2024. Celsim conta que releu a mensagem em fevereiro de 2017, depois de receber pelo SUS o antirretroviral que esperava desde 1984. Por uma semana, olhou para o frasco sem conseguir tomar a pílula e chorou enquanto falava com Dionísio.
Depois, abriu o frasco e engoliu o remédio com um gole de café. Na lembrança de Celsim, o tratamento tornou o corpo “quimicamente impenetrável para o HIV” e transformou a aids, antes fatal, em uma doença crônica e controlável.
Celsim conheceu Dionísio em 1987. O irmão morreu em 1994, dois anos antes do surgimento dos primeiros antirretrovirais da nova geração, descritos no livro como medicamentos que mudaram o tratamento. A autora afirma que ficou órfã de irmão e associa a trajetória dos dois às experiências de sexo, prazer, arte, amor, doença e morte.
Uma geração diante das perdas
Na carta, Celsim relata que, entre os dezesseis e os vinte e nove anos, participou dos enterros de dezenas de amigos, alunos, irmãos de amigos, namorados e do próprio Dionísio, vítimas da aids. O primeiro foi o do arquiteto e diretor de arte Flávio Império, melhor amigo de Myriam Muniz, sua tutora, em 1985. Cerca de um ano e meio depois, chegou a ir ao cemitério duas vezes em uma semana. Aos dezoito anos, enterrou um aluno da mesma idade.
O livro é apresentado como uma tentativa de escrever sobre esse período sem apagar a alegria, a inteligência e a arte das pessoas atingidas pela epidemia. Celsim chama esse projeto de “desmassacre” e afirma que pretende publicar as cartas e recriar, por meio delas, a vida em um tempo descrito como sem esperança, mas atravessado pelo amor, pela imaginação e pelo corpo.
Indetectável, de Celsim P.S., foi publicado pela Fósforo e tem 312 páginas.








