Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não participará do debate presidencial da TV Globo, marcado para quinta-feira (1º), antes do primeiro turno. A ausência foi confirmada pela campanha nesta quarta-feira (30), sob a avaliação de que o presidente poderia se tornar o alvo exclusivo dos demais candidatos.
A estratégia prevê confrontos diretos nos meios de comunicação apenas no segundo turno. No mesmo horário do debate, Lula deve conceder entrevista ao podcast Flow. Em agosto, quando não participou do debate da TV Bandeirantes, o presidente deu uma entrevista exibida simultaneamente pela TV Record.
Como será o debate
O encontro da TV Globo costuma ser o último antes do primeiro turno. Em 2026, ele e o debate da TV Bandeirantes, realizado em agosto, serão os dois únicos confrontos diretos entre os presidenciáveis até essa etapa da votação.
Debates previstos pela TV Record e pelo Consórcio Momento da Decisão, que reúne SBT, RedeTV, Exame e CNN Brasil, foram cancelados após a ausência dos principais candidatos. A mesma situação ocorreu no pleito de 2022.
Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo) estarão no debate de quinta-feira (1º). Flávio Bolsonaro (PL), que também não participou do confronto da TV Bandeirantes, confirmou presença na TV Globo.
A campanha de Lula avaliou duas possibilidades: comparecer para tentar fragilizar Flávio Bolsonaro ou evitar que o presidente se transformasse no principal alvo dos adversários à direita. A decisão pela segunda opção ocorreu em meio à disputa acirrada entre os dois. Na quarta-feira (30), Lula tinha 41,1% das intenções de voto no primeiro turno, contra 40,1% de Flávio, conforme o agregador de pesquisas mencionado no levantamento. Os dois apareciam empatados dentro da margem de erro.
Histórico de ausências
Lula adotou estratégia semelhante em 2006, quando disputou a reeleição e não participou do debate da TV Globo antes do primeiro turno. Na ocasião, seus adversários eram Geraldo Alckmin, Cristovam Buarque e Heloisa Helena. Aliados do petista avaliaram mais tarde que a decisão foi um erro e associaram a ela o prolongamento da disputa para a segunda votação.
Lula recebeu 48,61% dos votos válidos no primeiro turno de 2006, contra 41,64% de Geraldo Alckmin.
A ausência em debates também marcou outras eleições. Em 1989, Fernando Collor de Mello não participou de nenhum dos seis encontros realizados antes do primeiro turno, mas esteve nos dois debates do segundo turno com Lula. Collor foi eleito com 53,03% dos votos.
Em 1994, Fernando Henrique Cardoso participou de um dos três debates realizados e venceu no primeiro turno com 54,24% dos votos. Em 2002, Lula participou apenas do debate da TV Globo na disputa de segundo turno contra José Serra e terminou eleito com 61,27% dos votos.
Na campanha de reeleição de 2006, Lula faltou a três debates no primeiro turno e venceu a eleição em segundo turno com 60,83% dos votos. Em 2018, após o atentado que sofreu em Juiz de Fora (MG), Jair Bolsonaro não voltou aos debates na reta final do primeiro turno nem no segundo turno. Ele foi eleito com 55,54% dos votos válidos.
Avaliação de especialistas
Para Luciana Veiga, professora da FGV e da Unirio, não participar reduz o risco de um desempenho considerado desfavorável pela equipe do candidato, mas também elimina o espaço de confronto e deixa a ausência sujeita a interpretações. Segundo ela, o debate repercute nas conversas cotidianas, nas redes sociais e na imprensa, além de alcançar os eleitores indecisos.
Frederico Bertholini, professor do Instituto de Ciência Política da UnB e pesquisador do Lapcipp, avaliou que Lula tem pouco a ganhar em termos de informação e muito a perder ao participar. Na análise dele, líderes e candidatos que ocupam o governo tendem a evitar debates quando o risco supera o benefício esperado.
Bertholini afirmou que a presença de Flávio pode ajudá-lo a disputar eleitores que ainda não decidiram o voto e atualizar a avaliação sobre sua competência e estatura presidencial. A composição do debate também pode reduzir os ataques ao candidato, na avaliação do professor.
Veiga disse que os debates ficaram mais agressivos, mas que o formato e as regras podem reduzir esse efeito. Bertholini observou que esses encontros costumam reforçar preferências mais do que converter eleitores. Para ele, a ausência simultânea dos dois líderes diminui o custo político de faltar e pode levar ao cancelamento de debates.
Na avaliação de Bertholini, a falta de confrontos reduz a discussão sobre projetos. Veiga, por sua vez, considera o debate especialmente relevante para os eleitores que permanecem indecisos até a reta final.








