Pesquisas qualitativas vêm ganhando espaço na ciência ao combinar procedimentos mais estruturados com a análise de experiências, percepções e significados que não podem ser explicados apenas por números. Na última década, o refinamento metodológico da área também impulsionou métodos mistos, que integram estratégias qualitativas e quantitativas.
Essas abordagens são usadas em estudos sobre a experiência de pacientes com esquizofrenia, a saúde mental de estudantes universitários, as transições socioambientais na Amazônia e a relação entre desinformação e vacinação infantil. Entrevistas em profundidade e grupos focais estão entre as técnicas empregadas.
Expansão na saúde
Na plataforma PubMed, a quantidade de artigos relacionados à pesquisa qualitativa passou de pouco mais de 2.000 em 1980 para mais de 26 mil em 2000. Em 2020, eram mais de 230 mil; em 2026, chegaram a 425 mil.
Egberto Ribeiro Turato, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), relaciona esse crescimento ao interesse pela humanização das práticas clínicas. Segundo ele, além de estabelecer relações de causa e efeito, a ciência passou a buscar como pacientes, familiares e profissionais vivenciam os fenômenos ligados à saúde.
Turato criou o método clínico-qualitativo e afirma que a abordagem investiga dimensões humanas e simbólicas aplicadas à clínica e à saúde coletiva. Em um estudo sobre pacientes com esquizofrenia tratados com clozapina, entrevistas abertas examinaram a experiência de comparecer semanalmente à Unicamp para a realização de exames.
O estudo concluiu que as visitas frequentes não produziram percepções negativas. Segundo Turato, elas aumentaram a sensação de acolhimento, promoveram segurança, favoreceram a adesão ao tratamento e reduziram o isolamento dos pacientes.
Métodos combinados
Kelly Cristina Brandão da Silva, da FCM-Unicamp, acrescentou uma etapa quantitativa a uma pesquisa sobre saúde mental e sofrimento psíquico de estudantes. Iniciado em julho de 2024, o projeto combinou grupos focais e um questionário online com 118 perguntas sobre permanência estudantil, racismo, gênero, assédio e expectativas profissionais.
A pesquisadora afirma que os dados quantitativos ajudaram a aperfeiçoar as perguntas qualitativas. O estudo identificou, entre outros pontos, a percepção de que as políticas de permanência são insuficientes e conflitos de pertencimento entre estudantes pretos, pardos, indígenas e refugiados.
Na área ambiental, o Projeto Duramaz 3 investiga mudanças socioambientais em 15 regiões da Amazônia. Carla Morsello, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), explica que a terceira fase busca ampliar o uso de indicadores qualitativos e desenvolver jogos sérios para apoiar decisões de comunidades locais e gestores públicos.
Desinformação e vacinação
Mário Aquino Alves, professor do Departamento de Gestão Pública da FGV, coordena um estudo sobre a relação entre desinformação sobre vacinas e redução da cobertura vacinal no Brasil. A pesquisa analisa discursos antivacina em grupos públicos do Telegram, combinando rastreamento quantitativo e análise qualitativa.
Entre 2013 e 2020, a proporção de bebês brasileiros de até 12 meses vacinados caiu de mais de 90% para menos de 68%. Entre 2019 e 2021, as postagens com narrativas antivacina aumentaram 689 vezes, em uma análise de mais de 80 milhões de publicações feitas em 1.785 grupos no Telegram.
O estudo também compara dois grupos em situação vulnerável: um em Guapiruvu, bairro rural de Sete Barras, no Vale do Ribeira, e outro na Zona Sul da cidade de São Paulo. Para Alves, a análise qualitativa ajuda a explicar por que determinadas narrativas se tornam convincentes, enquanto métodos quantitativos mostram sua disseminação.
Segundo o pesquisador, o avanço dos desenhos de pesquisa, da formalização dos procedimentos e da interpretação de dados ampliou as perguntas que podem ser investigadas. Ele também afirma que a inteligência artificial permite analisar grandes volumes de textos, vídeos e áudios que seriam inviáveis de examinar manualmente há cinco anos.








