São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Saúde

IA amplia desafios para conter desinformação sobre saúde, avalia pesquisadora

Nina Santos afirma que combater conteúdos falsos exige regulação, educação midiática e financiamento para informação de qualidade.

IA amplia desafios para conter desinformação sobre saúde, avalia pesquisadora

A inteligência artificial generativa tornou mais simples a produção de imagens, vídeos e outros conteúdos falsos sobre saúde, segundo a jornalista e pesquisadora Nina Santos. Para ela, a mudança também dificulta a identificação de autoridades e a avaliação da confiabilidade das informações consumidas pela população.

Santos é pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital da Universidade Federal da Bahia. Ela afirma que os efeitos da desinformação não se restringem às escolhas individuais: alcançam a vacinação, as políticas públicas, o orçamento e a confiança em universidades e institutos de pesquisa.

Ciência, pandemia e confiança pública

Na avaliação da pesquisadora, a saúde se tornou especialmente vulnerável porque os protocolos mudam conforme as pesquisas avançam. Essas alterações, embora associadas ao desenvolvimento científico, podem ser distorcidas por pessoas que já desconfiam da ciência.

A pandemia de covid-19 ampliou esse ambiente. O isolamento social aumentou o consumo de informação na internet e criou uma preocupação generalizada sobre tratamentos e prevenção. No Brasil, o questionamento sobre vacinas ganhou força e o movimento antivacina passou a estar mais associado a uma disputa política.

Santos diz que a experiência não eliminou as crenças formadas naquele período. Parte das pessoas continuou a aceitar discursos sobre supostos danos causados pelas vacinas, como a instalação de chips ou a transformação em jacaré. Para ela, a comprovação científica de que uma afirmação é falsa não é suficiente, sozinha, para fazer esse discurso desaparecer.

Entre as consequências coletivas apontadas estão a queda das taxas de vacinação e o aumento da circulação de doenças que já haviam sido erradicadas. A pesquisadora também cita o caso da cloroquina: a afirmação falsa de que o medicamento curava a covid-19 teria contribuído para mortes e para gastos públicos com produção, compra e desenvolvimento de um protocolo de tratamento precoce.

Plataformas e responsabilidade

A Anvisa fez, em agosto, um novo alerta sobre conteúdos que prometem tratamentos médicos milagrosos sem respaldo científico. A prática se expandiu nas redes sociais com o avanço da inteligência artificial generativa e passou a exigir respostas de autoridades e empresas.

Santos afirma que as plataformas são fundamentais para reduzir a circulação desses materiais, inclusive porque seus sistemas de publicidade podem ser usados por pessoas interessadas financeiramente em disseminar informações falsas. Ela considera, porém, limitada a autorregulação das empresas, que criam regras próprias sem necessariamente estarem sujeitas a fiscalização e responsabilização suficientes.

A pesquisadora defende a combinação entre parcerias com o poder público e medidas regulatórias. Ela menciona a aprovação do ECA digital e o julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet como ações que criam mecanismos de responsabilização para as plataformas. Também ressalta que acordos voluntários podem não ser cumpridos.

No campo tecnológico, Santos identifica duas mudanças centrais. A primeira é a facilidade para criar falsificações. A segunda é o crescimento do uso de sistemas de inteligência artificial como fonte de informação. Como esses sistemas tomam decisões e não são neutros, o público pode ficar mais distante das fontes originais e com menos capacidade de avaliar o que é confiável.

A inteligência artificial também agravou o uso indevido do discurso de autoridade. Já havia vídeos de pessoas que se apresentavam como médicos para vender fórmulas, medicamentos manipulados ou livros digitais. Agora, vozes de médicos famosos podem ser reproduzidas em vídeos falsos, tornando mais difícil reconhecer a autoridade construída artificialmente.

Educação e informação de qualidade

Para Santos, responsabilizar empresas é apenas uma das frentes de resposta. O combate precisa incluir educação midiática, para que as pessoas aprendam a lidar com tecnologias que mudam rapidamente. Ela avalia que o Brasil está entre os países mais bem posicionados para enfrentar desafios digitais, mas afirma não ter segurança de que o país disponha de toda a capacidade necessária para implementar as medidas.

A pesquisadora também relaciona a desinformação à situação financeira do jornalismo. Como a receita publicitária migra cada vez mais para as plataformas digitais, diminui a capacidade de produzir informação de qualidade. “Não basta querer tirar as informações nocivas do ambiente digital; precisamos ocupá-lo com informação de qualidade”, afirmou.

Outro ponto é o acesso desigual à internet. No Brasil, grande parte da população usa celular com planos pré-pagos e limite de dados. Quando a franquia termina, o chamado zero rating permite o acesso apenas a serviços parceiros das operadoras. Assim, uma pessoa pode receber no WhatsApp um link para uma notícia, mas não conseguir abri-lo e consultar o conteúdo completo.

A avaliação de Santos é que a resposta depende de regulação, educação e garantia de acesso a informação plural e diversa. Para ela, essas medidas precisam avançar juntas, porque retirar conteúdos falsos sem ampliar a oferta de informação confiável não resolve o problema.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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