O deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) teria usado sua circulação política para oferecer a terceiros a promessa de intermediar demandas com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo indícios reunidos na investigação da Polícia Federal. A operação contra o parlamentar foi deflagrada na segunda-feira, 14, por autorização do ministro Flávio Dino.
A decisão menciona conversas em que Cezinha afirmou ter tratado de processos com André Mendonça e Kassio Nunes Marques, ambos ministros indicados ao STF por Jair Bolsonaro (PL). A PF, porém, informou que não identificou até o momento sinais de que os ministros tenham pedido, aceitado ou recebido vantagens indevidas. Eles também não são investigados por decisões contrárias à lei.
“O que se apura é a mercancia da influência por quem a ofereceu e a precificou”, escreveu Dino, ao diferenciar a conduta atribuída ao deputado da situação dos ministros citados.
Diálogos e pedidos a ministros
Um dos episódios analisados ocorreu em 12 de junho de 2025. A advogada Valéria Rodrigues Linhares, esposa de Cezinha, e a servidora da Câmara dos Deputados Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, foram alvo da investigação. Tuca encaminhou ao deputado memoriais sobre processos no STF e perguntou sobre uma tentativa de obter vista em uma reclamação.
Cezinha respondeu que seria recebido às 16h. Após ser questionado se o encontro seria com Nunes Marques, disse que já havia tratado do assunto com Mendonça e com Antônio Carlos, em possível referência ao ministro do Superior Tribunal de Justiça Antônio Carlos Ferreira. Também afirmou que conversaria por vídeo com Nunes Marques.
Para Dino, os termos usados indicam algo além do simples envio de documentos a um gabinete. Na avaliação do ministro, Cezinha se comprometia a fazer um pedido pessoal e direto ao julgador em favor de partes representadas por advogadas ligadas a ele por casamento e interesses econômicos. A identidade de uma pessoa mencionada na conversa será examinada a partir dos dispositivos apreendidos pela PF.
Em 18 de junho de 2025, Tuca enviou ao deputado três memoriais destinados a Nunes Marques, Mendonça e Gilmar Mendes. O material fazia referência a Luís Edson Fachin, atual presidente do tribunal, e estava relacionado à Reclamação 76.831, em que atuava um escritório ligado à servidora.
Suposta divisão de tarefas
O relatório da PF encaminhado ao relator descreve uma divisão de funções entre Cezinha, Tuca e Valéria Rodrigues Linhares. Segundo a investigação, a servidora captava causas e preparava memoriais; Valéria cuidava de contratos de honorários e cessões de crédito; e o deputado mantinha contatos pessoais com ministros de tribunais superiores.
A investigação afirma que, nesse modelo, as advogadas forneciam informações sobre processos, Cezinha dizia ter conversado ou feito pedidos a ministros, e depois eram discutidos resultados e contratos de honorários condicionados ao êxito.
Outro caso envolvia um processo da prefeita de Beberibe (CE), relatado por Nunes Marques. Depois de ser questionado por Tuca, Cezinha disse que havia despachado o processo. Dias mais tarde, Valéria relatou que o assunto havia sido reforçado e que alguém tinha falado diretamente com uma pessoa ligada ao caso.
Também foram encontrados contratos relacionados a processos sob relatoria de Nunes Marques. Em um deles, ligado à Reclamação 81.608, uma sociedade de advocacia associada à mulher do deputado teria direito a 1 milhão de reais em honorários se houvesse êxito. Um aditivo previa outros 2 milhões de reais caso o cliente obtivesse liberdade, mesmo com medidas cautelares.
Em agosto de 2025, após o gabinete de Nunes Marques responder de forma protocolar a um pedido de audiência, Tuca reclamou que os ministros não estariam ajudando. Cezinha respondeu que iria verificar a situação e, dias depois, pediu novamente o registro do pedido.
Para a PF, as conversas sugerem uma atuação conjunta de Tuca e Valéria para buscar decisões favoráveis no Supremo com o auxílio de Cezinha. Dino afirmou que o deputado aparentava usar a influência associada ao cargo parlamentar para criar, em terceiros, a percepção de que poderia influenciar magistrados de tribunais superiores.
Kassio Nunes Marques e André Mendonça não haviam se manifestado. A defesa de Cezinha negou irregularidades, afirmou que o deputado está à disposição das autoridades e criticou a operação por considerar que medidas desse alcance deveriam ter sido conduzidas com distância de circunstâncias políticas ou eleitorais.







