ASSIS — As celebrações pelos 800 anos da morte de São Francisco ganham força em Assis, na Itália, com a retomada do 4 de outubro como feriado nacional. A programação terá como centro a Basílica Superior, onde os sinos tocarão às 23h59 de 3 de outubro para marcar o início oficial das comemorações.
O feriado foi instituído para homenagear valores associados ao santo, como paz, fraternidade, solidariedade e respeito pelo ambiente. A cerimônia do domingo contará com a presença do presidente da República, Sergio Mattarella, e de embaixadores de vários países.
Para o frei Giulio Cesareo, diretor do Gabinete de Comunicação do Sacro Convento de Assis, a importância de Francisco ultrapassa as fronteiras italianas. “Francisco não é um dom apenas para a Itália, mas para o mundo”, afirmou.
Um símbolo reinterpretado ao longo do tempo
O professor Antonio Musarra, da Universidade La Sapienza, em Roma, e pesquisador associado em Harvard, afirma que a imagem de Francisco mudou em diferentes períodos históricos. Segundo ele, a figura do santo associada à paz e à diplomacia começou a se consolidar depois da Primeira Guerra Mundial.
Musarra também destaca o modo como Francisco se relacionava com outras culturas e com pessoas consideradas diferentes. Entre os exemplos estão o contato com um leproso, ligado à sua conversão, e o encontro com o sultão do Egito.
O episódio ocorreu durante a Quinta Cruzada, em Damieta, no Egito, quando Francisco encontrou al-Malik al-Kamil, sobrinho de Saladino. O local era um porto e um importante centro comercial, disputado por cristãos e muçulmanos em um conflito de natureza econômico-militar.
Francisco deixou o campo dos cruzados e atravessou as linhas inimigas com a intenção de converter o sultão. A conversão não ocorreu, mas o religioso foi recebido com respeito. A tradição também narra a chamada prova do fogo, na qual Francisco teria se disposto a entrar nas chamas para demonstrar a verdade de sua fé. O desafio foi recusado, mas sua coragem teria impressionado o governante.
Para o padre Paolo Nicelli, professor de teologia na Universidade Católica de Milão e especialista na relação entre Islã e modernidade, o encontro se tornou um modelo de diálogo entre religiões por privilegiar a palavra em vez das armas. Ele define o episódio como um exemplo de misericórdia e perdão, valores que considera necessários em uma sociedade globalizada.
A representação feita por Giotto integra o ciclo sobre a vida de São Francisco na parte inferior da única nave da Basílica Superior de Assis, pintada no final do século XIII.







