POLÔNIA — Dois ataques com faca em escolas, registrados em um intervalo de dois dias, voltaram a expor a violência juvenil no país. Em 7 de outubro, um jovem de 19 anos feriu nove pessoas em um Conjunto de Escolas Profissionais n.º 4, em Ostrołęka. No dia seguinte, um ex-aluno de 15 anos atacou três pessoas em uma escola básica de Leszczydół-Nowiny.
Uma funcionária da escola, de 37 anos, morreu após o segundo ataque. Outras duas pessoas ficaram feridas. Também provocou preocupação o caso de um jovem de 17 anos de Sierpc, suspeito de preparar um ataque contra uma escola.
A polícia anunciou o reforço de ações preventivas nos estabelecimentos de ensino e passou a analisar ameaças e sinais publicados na internet que possam indicar tentativas de imitação dos ataques.
Violência tem múltiplos fatores
O ministro do Interior e Administração, Marcin Kierwiński, informou que os jovens agressores podem ter sido inspirados por um desafio na internet. As especialistas ouvidas para a análise do tema ressaltam, porém, que conteúdos online não explicam sozinhos a decisão de uma pessoa de recorrer à violência.
A psicóloga e pedagoga Anetta Pereświet-Sołtan afirma que é necessário considerar um conjunto de fatores, entre eles dificuldades emocionais, situação familiar, relações com colegas e problemas na escola. Segundo ela, a adolescência envolve mudanças intensas no desenvolvimento do cérebro, enquanto o controle de impulsos e emoções e a capacidade de prever consequências ainda estão em formação.
Em situações de estresse ou frustração, jovens podem ter dificuldade para lidar com o que sentem e encontrar formas construtivas de expressar essas emoções. A especialista ressalta que não é possível determinar os motivos nem formular diagnósticos sem uma análise detalhada da situação de cada adolescente.
Małgorzata Lech-Krawczyk, educadora que trabalha com crianças e jovens, aponta o excesso de estímulos, o peso crescente do mundo virtual e conteúdos que podem prejudicar a concentração e a reflexão. Para ela, a escola deve ser também um espaço de diálogo, construção de relações e aprendizado sobre o reconhecimento das emoções.
Atenção a sinais e apoio nas escolas
Pereświet-Sołtan chama atenção para crianças que não apresentam problemas de comportamento. Calma e retraimento, segundo a psicóloga, não significam necessariamente que o jovem esteja lidando bem com as próprias emoções. “Miúdos que não conseguem lidar com as próprias emoções e, pode dizer‑se, não chamam a atenção de ninguém, não é por isso que deixam de precisar de atenção, que deixam de precisar de ajuda”, afirma.
A especialista diz que os adultos podem se surpreender ao descobrir que uma criança vista como tranquila enfrentava dificuldades sérias. Por isso, a avaliação do aluno não deve se limitar ao comportamento em sala de aula ou aos resultados escolares. Ela também afirma que não se deve julgar ou acusar famílias sem conhecer o contexto vivido pelos jovens.
Lech-Krawczyk defende melhor preparação dos professores para reconhecer problemas emocionais. Para a educadora, a responsabilidade pela segurança e pelo desenvolvimento dos alunos não pode ficar apenas com psicólogos e pedagogos escolares. As escolas precisam de espaço para conversas, projetos conjuntos e encontros nos quais os estudantes possam falar sobre o que vivem.
Influência da internet
As especialistas afirmam que a vida dos jovens ocorre simultaneamente no mundo real e no virtual, enquanto muitos pais não sabem quais conteúdos os filhos acessam ou com quais comunidades interagem. A internet pode oferecer inspiração para comportamentos, mas seus efeitos variam conforme as experiências anteriores, o estado emocional e as relações de cada jovem.
A pedagoga recorda que a psicologia descreve mecanismos de imitação de comportamentos. No contexto dos suicídios, esse fenômeno é chamado de efeito Werther. A imitação também pode ocorrer em comportamentos agressivos, mas a exposição a uma notícia ou a outro conteúdo não conduz automaticamente a novos ataques.
As duas especialistas defendem que a prevenção exige atenção dos adultos, preparação das escolas para reconhecer situações de crise, abordagem responsável dos conteúdos online e relações que permitam aos jovens ser ouvidos antes que seus problemas evoluam para situações de risco.







