O aquecimento global já provoca perdas econômicas que se espalham por cadeias de produção, comércio e serviços. Na Alemanha, a baixa histórica do rio Reno pode reduzir em até 0,2% a produção econômica do país no terceiro trimestre de 2026, de acordo com o Instituto Kiel para a Economia Mundial.
O rio é a principal via navegável interior da Europa e liga o porto de Roterdã, na Holanda, a grande parte do oeste alemão. Em alguns trechos, a capacidade de transporte caiu para apenas 15% após um período prolongado de seca associado às mudanças climáticas. A restrição afeta o fluxo de mercadorias e pressiona a atividade econômica.
Perdas que chegam às famílias
Um estudo de 2026 da MIT Sloan School of Management e da UCLA School of Law calculou que as mudanças climáticas elevaram em 900 dólares, cerca de 4,6 mil reais, por ano as despesas médias das famílias americanas. Em um de cada dez condados dos Estados Unidos, o custo supera 1,3 mil dólares.
Entre os itens incluídos estão os seguros residenciais, que ficaram em média 600 dólares mais caros, além do aumento de impostos estaduais e federais relacionado à recuperação de desastres e aos efeitos da fumaça de incêndios florestais sobre a saúde.
Os pesquisadores classificaram a falta de ação climática como um custo distribuído entre as famílias americanas. Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados no planeta, em um período marcado por ondas de calor, secas e incêndios florestais.
Efeito sobre salários e cadeias de produção
Derek Lemoine, professor de economia da Universidade do Arizona, estimou uma redução de 12% na renda dos americanos em comparação com um cenário sem mudanças climáticas. Para ele, os impactos não ficam restritos ao local atingido pelo evento extremo.
Uma onda de calor que destrua plantações de milho em todo o território americano, por exemplo, pode encarecer a commodity e atingir produtores de gado, fabricantes de alimentos e outras atividades dependentes desse insumo. À medida que os custos se elevam ao longo da cadeia de suprimentos, a renda de quem depende dessas atividades diminui.
Um relatório de 2024 do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impactos Climáticos estimou que os danos à agricultura, à infraestrutura e à saúde, somados às perdas de produtividade, podem custar 38 trilhões de dólares por ano à economia mundial até 2050.
Impactos acumulados na Austrália
No estado australiano de NSW, o aquecimento global reduziu a produção econômica em cerca de 18% em média, segundo relatório elaborado com participação de Timothy Neal, pesquisador do Instituto para Risco e Resposta Climática da Universidade de New South Wales. O impacto correspondeu a 21.288 dólares australianos, cerca de 80 mil reais, por pessoa em 2024.
O estudo também relaciona secas ocorridas em partes de NSW em meados e no final da década de 2010 a perdas de até 10 bilhões de dólares australianos na produtividade estadual. Entre os efeitos estão a queda das colheitas e da renda agrícola, o aumento do custo da água e a maior dependência de assistência governamental.
Os impactos se acumularam em diferentes áreas, incluindo alimentos, seguros e manutenção de infraestrutura. O relatório afirma que eles ampliam pressões econômicas existentes e as disparidades entre regiões, contribuindo para o aumento da desigualdade de renda.
Adaptação e redução de emissões
Frank Jotzo, economista e comissário da Comissão Net Zero de NSW, defende que a ação climática também deve ser avaliada como uma decisão econômica. Entre os investimentos necessários estão o reforço de estradas, ferrovias e estruturas de transporte marítimo, além da ampliação de áreas verdes nas cidades para reduzir os efeitos das ilhas de calor.
As ondas de calor europeias de 2026 já custaram cerca de 180 bilhões de euros, ou 1,06 trilhão de reais, segundo uma análise. O valor equivale a todo o crescimento econômico projetado para a União Europeia neste ano.
A adaptação inclui ainda o fortalecimento dos sistemas de saúde e da rede hospitalar. O estresse térmico pode fazer trabalhadores se cansarem mais rapidamente ou terem dificuldade para dormir, reduzindo a produtividade.
Lemoine afirma que a adaptação ao declínio econômico provocado pelas mudanças climáticas é cara por si só e pode ser ineficaz se não for abrangente. Para evitar perdas de renda que tendem a aumentar com o aquecimento global, são necessárias medidas de adaptação e uma rápida redução das emissões, especialmente diante das metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.







