CHAMONIX-MONT-BLANC — O recuo das geleiras e o derretimento do permafrost aumentaram o risco de quedas de rochas e blocos de gelo no maciço do Mont Blanc, na fronteira entre França e Itália. Stéphane Bozon, responsável pela segurança e vice-prefeito de Chamonix-Mont-Blanc, afirma que a cidade precisa se preparar com urgência para cenários em que esses blocos atinjam áreas habitadas.
As ondas de calor registradas neste verão na Europa afetaram o permafrost, camada congelada que ajuda a sustentar as encostas alpinas. A abertura de fendas, o recuo das geleiras e o derretimento da neve dificultaram o acesso a algumas áreas. Um desfiladeiro usado por alpinistas nas subidas ao cume do Mont Blanc ficou temporariamente intransponível.
Aumento das quedas de rochas
Na Aiguille du Midi, a 3 842 metros de altitude, a temperatura média de julho chegou a 3,3 ºC, a maior já registrada no local. Em 1994, a média havia sido de 1,6 ºC, de acordo com a Meteo France, o serviço meteorológico nacional.
Ludovic Ravanel, pesquisador da Universidade Savoie Mont Blanc, afirma que o gelo ainda mantém muitas paredes rochosas de pé, mas que várias delas estão próximas da instabilidade. Ele estima que o número de grandes desmoronamentos no maciço neste ano deverá ficar em torno de 400 — cerca de dez vezes o registrado há duas décadas.
Um desmoronamento envolve mais de 100 metros cúbicos de rocha. A última vez que a quantidade se aproximou desse nível foi em 2022, quando foram registrados quase 300 casos. Para Ravanel, o aumento das quedas foi uma das marcas do verão de 2026.
Impactos para moradores e montanhistas
O guia de montanha Stuart MacDonald, que trabalha em Chamonix, relata que o recuo das geleiras alterou a condução de grupos aos picos. O risco de desmoronamentos o levou a cancelar, na semana anterior, os planos de guiar um grupo até o cume do Mont Blanc.
Na Lombardia, na Itália, as geleiras alpinas perderam mais de 40% de sua superfície desde 1991, segundo o serviço regional de geleiras. Vanda Bonardo, da seção italiana da Comissão Internacional para a Proteção dos Alpes, afirma que áreas onde antes nevava em grandes altitudes agora registram chuva, o que também afeta a estabilidade do terreno.
O alerta ganhou força após as inundações que atingiram Nepal e China em 26 de agosto. O desastre foi desencadeado pelo colapso de rocha, gelo glacial e detritos que avançaram por rios do Himalaia. Avaliações iniciais de cientistas apontaram que as mudanças climáticas tiveram papel central na formação das condições para a catástrofe.







