O novo filme de Alejandro González Iñárritu coloca uma crise climática no centro de uma sátira sobre poder, comunicação pública e respostas políticas. Em “Digger”, uma operação de perfuração na Gronelândia, conduzida pelo magnata do petróleo Digger Rockwell, provoca uma explosão e o desprendimento de um enorme bloco de gelo do Ártico.
O glaciar recebe o nome de Judy, tem cinco vezes o tamanho de Washington D.C. e segue em direção à Europa. A ameaça leva o governo dos Estados Unidos a buscar uma solução militar, mas a estratégia de atacar antes de compreender o problema não funciona diante das forças naturais.
Poder, desastre e espetáculo
Interpretado por Tom Cruise, Rockwell é um bilionário envelhecido cuja preocupação inicial é Maggie, seu gato de 38 anos. O animal estaria entre “duas semanas e cinco minutos” de vida, mas acaba deixado em segundo plano quando o desastre causado pelo empresário passa a exigir uma resposta.
O presidente Compton, vivido por John Goodman, encarrega Rockwell de tentar impedir uma catástrofe de escala global. Riz Ahmed interpreta o Dr. Ganesh, cientista ambiental que confronta a tentativa de controlar a natureza por meio de decisões políticas e militares. Sandra Hüller aparece como Emma, meia-irmã de Rockwell, enquanto Jesse Plemons participa de um dos momentos decisivos da trama.
A produção usa o cenário de emergência para satirizar a geopolítica americana, a administração Trump, a prioridade dada aos negócios e a maneira como os Estados Unidos enxergam a Europa. A crítica também alcança a manipulação do discurso público e a transformação de tragédias em narrativas convenientes.
Uma aposta metalinguística
O filme se aproxima de uma sátira sobre a própria sátira. Uma revelação, preservada para não antecipar a trama, reorganiza a leitura das atuações caricaturais e da estrutura exagerada da história. A proposta dialoga com “Birdman”, obra anterior de Iñárritu, e explora a ideia de que o tempo pode converter uma tragédia em comédia.
A crítica, porém, considera que essa ambição não se desenvolve por completo. O roteiro, assinado por Iñárritu, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone e Sabina Berman, não aprofunda as questões sociais e depende de discursos explicativos para apresentar suas intenções. O humor também não sustentaria inteiramente o tom mordaz pretendido.
Cruise adota uma interpretação deliberadamente excessiva, com barriga prostética, penteado que disfarça a calvície e dicção caricatural. O resultado reforça o caráter teatral do personagem, mas não transforma o papel em uma atuação capaz de garantir ao ator o reconhecimento esperado pela Academia.
A direção de fotografia de Emmanuel Lubezki e o desenho de produção de Dennis Gassner são apontados como os principais destaques técnicos. Já Iñárritu, vencedor por “Birdman” e “The Revenant”, conduz uma obra que pretende discutir cumplicidade, espetáculo e responsabilidade, mas que pode parecer moralista e autocentrada.
“Digger” estreia nas salas de cinema.







