PARIS — Othman Garrido, de 32 anos, começou a ser julgado nesta segunda-feira (14), em Paris, por acusações de assassinato e homicídios cometidos durante o domínio do Estado Islâmico no Iraque e na Síria. O processo deve terminar em 21 de setembro e pode resultar em prisão perpétua.
Natural de Montpellier, no sul da França, Garrido viajou voluntariamente para a Síria em 2012, aos 18 anos. Primeiro, integrou a Jabhat al-Nosra, braço sírio da Al-Qaeda, e depois passou para o Estado Islâmico, após o rompimento entre os dois grupos. Ele teria permanecido oito anos na Síria e no Iraque.
Entre as provas analisadas estão fotografias recuperadas de um telefone que teria pertencido à mulher de Garrido. Os dois se casaram religiosamente em áreas controladas pelo Estado Islâmico e tiveram dois filhos. As imagens foram entregues aos investigadores franceses pelos americanos, que lideravam a coalizão internacional responsável pela derrota do grupo em 2019.
Uma das fotos mostra um homem mascarado parcialmente diante de um corpo decapitado. A cabeça da vítima aparece aos pés dele, que levanta o indicador para o céu e tem sangue nas mãos. Garrido admitiu a semelhança com o homem da imagem, mas negou ser o responsável pela execução. Segundo ele, o retratado poderia ser um de seus irmãos, ambos mortos em combate na Síria.
A fotografia não tem data ou localização, a vítima não foi identificada e os peritos não conseguiram confirmar quem aparece nela. O advogado Antoine Ory afirmou: “Não se deve fazer uma foto dizer mais do que ela diz”.
Outro conjunto de imagens registra a execução pública de dois iranianos em 2015, em Al-Qaryatayn, no centro da Síria. Garrido aparece sorrindo ao lado dos supostos carrascos, os franceses Yacine Rettoun e Oumar Diaw, e em uma caminhonete usada para levar as vítimas ao local. Ele reconheceu que presenciou o ato.
A análise da trajetória do acusado também terá espaço no julgamento. Seu pai, um convertido franco-espanhol, morreu em um atentado suicida em 2016, e seus dois irmãos foram mortos em combate. Avaliações feitas durante a detenção indicaram possível afastamento do discurso jihadista. Em 2023, a administração penitenciária mencionou uma “desconstrução ideológica”.
Garrido já havia sido condenado em 2017 a 15 anos de prisão, em outro processo, por ingressar no Estado Islâmico, participar de combates e incentivar muçulmanos na França a cometer ações violentas. Como estava na Síria durante aquele julgamento, ele será novamente julgado na França, desta vez presencialmente, a partir de 22 de setembro.
Recurso sobre atentados na França
Também começou nesta segunda-feira, no Tribunal do Júri Especial de Paris, o julgamento em recurso de dois acusados ligados aos ataques de Trèbes e Carcassonne, no sul da França. O processo reavalia o grau de responsabilidade dos réus e as provas apresentadas contra eles.
Os ataques foram realizados por Radouane Lakdim em 23 de março de 2018 e provocaram quatro mortes. Entre as vítimas estava o tenente-coronel da gendarmaria Arnaud Beltrame, que morreu após se oferecer para trocar de lugar com uma refém.
Marine Pequignot, ex-namorada de Lakdim, é uma das acusadas. Ela havia sido radicalizada e mantinha contato com ele antes dos ataques. Os dois julgamentos discutem a responsabilidade de pessoas que participaram, apoiaram ou acompanharam organizações terroristas sem necessariamente terem executado os assassinatos.






