PARIS — Othman Garrido, francês de 32 anos acusado de assassinatos cometidos sob o domínio do Estado Islâmico, começou a ser julgado nesta segunda-feira (14), em Paris. Ele teria participado das atividades do grupo durante os oito anos em que viveu na Síria e no Iraque. Se condenado, poderá receber prisão perpétua.
Natural de Montpellier, no sul da França, Garrido foi para a Síria voluntariamente em 2012, aos 18 anos. Primeiro, integrou a Jabhat al-Nosra, braço sírio da Al-Qaeda, e depois passou ao Estado Islâmico, após a ruptura entre as duas organizações.
Fotos apresentadas pela acusação
Entre as provas estão imagens encontradas em um telefone que teria pertencido à mulher de Garrido. Os dois se casaram religiosamente em áreas controladas pelo Estado Islâmico e tiveram dois filhos. As fotografias foram entregues aos investigadores franceses pelos americanos que comandavam a coalizão internacional responsável pela derrota do grupo em 2019.
Uma das imagens mostra um homem mascarado diante de um cadáver decapitado, com a cabeça da vítima aos pés. O homem aparece com sangue nas mãos e levanta o dedo indicador em um gesto associado à lealdade ao Estado Islâmico. Garrido reconheceu a semelhança com a pessoa fotografada, mas negou ser o executor e disse que poderia ser um de seus irmãos, ambos mortos em combate na Síria.
A fotografia não tem data ou localização. A identidade da vítima também é desconhecida, e os peritos não identificaram formalmente o homem. “Não se deve fazer uma foto dizer mais do que ela diz”, afirmou o advogado Antoine Ory. Segundo ele, mesmo que Garrido apareça na imagem, isso não prova que tenha cometido o assassinato.
Outra sequência retrata a execução pública de dois iranianos em 2015, em Al-Qaryatayn, no centro da Síria. Garrido aparece sorrindo, com as mãos nos ombros dos supostos executores, os jihadistas franceses Yacine Rettoun e Oumar Diaw. Há também registros dele dentro da caminhonete usada para transportar as vítimas. Garrido admitiu ter presenciado o ato.
Trajetória e outro processo
O julgamento deve terminar em 21 de setembro e incluir a análise da trajetória do acusado. Seu pai, um convertido franco-espanhol, morreu em um atentado suicida em 2016; os dois irmãos morreram em combate. Avaliações feitas durante a detenção indicaram possível afastamento do discurso jihadista. Em 2023, a administração penitenciária mencionou uma “desconstrução ideológica”.
Garrido foi condenado em 2017 a 15 anos de prisão, em outro processo, por ingressar no Estado Islâmico, participar de combates e incentivar muçulmanos na França a praticar ações violentas. Como estava na Síria durante aquele julgamento, deverá ser julgado novamente na França, desta vez presencialmente, a partir de 22 de setembro.
Paralelamente, começou em Paris o recurso de dois acusados ligados aos ataques de Trèbes e Carcassonne, no sul da França, ocorridos em março de 2018. Os atentados foram cometidos por Radouane Lakdim em 23 de março de 2018 e deixaram quatro mortos, entre eles o tenente-coronel Arnaud Beltrame, que morreu após se oferecer para trocar de lugar com uma refém.
Marine Pequignot, ex-namorada de Lakdim, está entre os acusados. Ela havia sido radicalizada e mantinha contato com ele antes dos ataques. O recurso vai reexaminar a responsabilidade dos réus e as provas apresentadas no caso.






