Richard Wolff avalia que os Estados Unidos estão substituindo a tentativa de manter uma hegemonia global por uma estratégia mais concentrada no Hemisfério Ocidental. Para o economista, a mudança ocorre diante da perda relativa de espaço econômico, político e militar do país, enquanto a China amplia sua capacidade produtiva e tecnológica.
A análise foi apresentada em uma entrevista com Glenn Diesen publicada no YouTube. Wolff afirmou que a ordem internacional organizada depois da Segunda Guerra Mundial está se desfazendo e dificilmente poderá ser restaurada nas mesmas condições.
A ordem liderada por Washington
Segundo o economista, os Estados Unidos saíram de 1945 em posição econômica e militar privilegiada, enquanto as antigas potências coloniais europeias estavam enfraquecidas. Na avaliação dele, Washington apoiou a independência política de países antes subordinados aos impérios europeus, mas reorganizou o comércio e as finanças internacionais em torno da economia norte-americana.
Esse arranjo colocou o dólar no centro das transações, dos empréstimos e dos fluxos de capital. A Europa, de acordo com Wolff, passou a atuar como parceira subordinada de uma estrutura liderada pelos Estados Unidos, sem alcançar autonomia econômica, militar e estratégica completa.
O economista considera que a política externa norte-americana não depende apenas de Donald Trump. Uma eventual alternância entre republicanos e democratas poderia modificar métodos e programas, mas não necessariamente o objetivo de preservar a posição internacional construída pelo país ao longo do século XX.
China altera o equilíbrio
Wolff atribui parte da transformação global à ascensão da China. Para ele, o país combinou empresas privadas, planejamento estatal e controle político de maneira pragmática, sem adotar uma defesa rígida de apenas um desses elementos.
Na avaliação do economista, Pequim procura evitar confrontos diretos quando possível e direciona recursos para o desenvolvimento industrial, econômico e tecnológico. Comércio, financiamento e cooperação militar seriam instrumentos para ampliar relações internacionais sem transformar cada parceria em uma disputa política aberta.
Ele também afirma que a China pode converter os resultados de seu desenvolvimento em influência internacional. Infraestrutura, tecnologia e propriedade imobiliária estariam entre os elementos capazes de mostrar a outros países um modelo de crescimento que, segundo Wolff, ainda é pouco conhecido pela população dos Estados Unidos.
Pressão sobre países do Hemisfério Ocidental
Wolff relaciona a nova estratégia norte-americana às pressões envolvendo Canadá, Groenlândia, Panamá, Venezuela e Cuba. Na interpretação dele, Washington busca concentrar sua influência em uma área regional capaz de compensar parte das vantagens que os Estados Unidos tiveram quando exerciam predominância em escala mundial.
“Creio que estamos assistindo ao surgimento de outro esforço e eu o chamaria, por falta de um termo melhor, de uma nova fase do colonialismo norte-americano”, afirmou Wolff.
O Canadá seria, para o economista, um exemplo da tentativa de ampliar a influência econômica dos Estados Unidos e limitar decisões independentes dos interesses de Washington. Ele também considera que a Groenlândia pode ser alvo de uma combinação entre pressão militar, investimentos e estímulos econômicos.
A estratégia, segundo Wolff, não dependeria somente de acordos formais entre governos. Empresas e lideranças locais poderiam ser atraídas por investimentos, empregos e atividades ligadas ao capital norte-americano.
Continuidade entre partidos
O economista também rejeita a ideia de que a política descrita seja exclusivamente ligada a Trump. Na avaliação dele, democratas e republicanos têm diferenças importantes, mas compartilham o interesse em preservar o máximo possível da posição internacional dos Estados Unidos.
Wolff afirma que Trump apresenta a antiga hegemonia norte-americana como uma situação em que o país teria sido explorado por parceiros internacionais. Essa narrativa, segundo ele, permite tratar medidas de pressão como reação defensiva a supostos abusos.
Para o economista, a Europa continua dependente da estrutura militar e política liderada por Washington. A fragmentação do continente, em sua avaliação, reduz a capacidade de seus países negociarem em condições de igualdade com grandes potências.
“Eles não sabem como romper sua dependência dos Estados Unidos”, declarou Wolff.
A transição descrita pelo economista combina a permanência da capacidade militar, econômica e financeira dos Estados Unidos com dificuldades para reproduzir a influência exercida nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Nesse cenário, o Hemisfério Ocidental ganha importância na estratégia de Washington, enquanto a China prioriza o fortalecimento econômico e tecnológico.








