Uma revisão de pesquisas liderada pelo Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe identificou uma espera de até 49 meses entre a primeira preocupação da família com sinais de autismo e a confirmação do diagnóstico em serviços especializados no Brasil. O levantamento foi publicado em agosto de 2026 na revista científica Children.
O trabalho reuniu oito estudos, com dados de mais de 24 mil participantes, para analisar os obstáculos à identificação precoce do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O intervalo de 49 meses foi o maior encontrado entre as pesquisas avaliadas.
A demora pode se acumular em diferentes etapas. A família pode perceber alterações no desenvolvimento, mas a preocupação nem sempre é transformada em uma investigação clínica estruturada. Também podem ocorrer atraso no encaminhamento para especialistas e novas filas até a realização da avaliação diagnóstica.
“Dois ou três anos na vida de uma criança pequena é muito tempo, porque estamos falando de uma fase de intenso desenvolvimento”, afirma Mara L. Cordeiro, neurocientista e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe. Segundo ela, a identificação antecipada permite o acesso mais rápido às intervenções.
Falhas no acompanhamento
Os pesquisadores destacam que o relato de pais e responsáveis tem papel importante, porque essas pessoas frequentemente são as primeiras a notar mudanças no desenvolvimento. A preocupação, porém, pode ser relativizada pela ideia de que cada criança tem seu próprio ritmo, sem que isso leve a uma avaliação detalhada.
Bianca Sallum, uma das autoras da revisão, afirma que o atraso resulta de um efeito cumulativo: a preocupação pode não gerar uma ação, oportunidades de rastreio podem não ser aproveitadas, e os encaminhamentos podem ocorrer tarde, seguidos por filas.
O estudo não atribui o problema a uma falha individual de pediatras ou de profissionais da atenção básica. Os autores relacionam as dificuldades à organização dos serviços de saúde, incluindo capacitação, acompanhamento do desenvolvimento infantil e definição de fluxos entre os níveis de atendimento.
Entre os fatores apontados estão o uso insuficiente de ferramentas estruturadas para acompanhar o desenvolvimento, a dificuldade de encaminhar a criança no momento adequado e a espera por consultas especializadas. Para os pesquisadores, o fortalecimento da atenção primária pode ajudar a reduzir esses obstáculos, já que as equipes acompanham a criança desde os primeiros anos e podem ouvir os cuidadores e reconhecer sinais que exigem investigação.
Lacunas nos dados
A revisão também encontrou baixa representatividade de alguns grupos nas pesquisas brasileiras. Algumas amostras eram formadas por até 97% de meninos, o que limita o conhecimento sobre a trajetória diagnóstica das meninas e sobre possíveis diferenças na identificação do TEA.
Também faltam informações suficientes sobre raça, condição socioeconômica e local de atendimento. Para Sallum, a ausência de dados impede medir adequadamente se crianças negras, indígenas ou de determinados grupos sociais enfrentam trajetórias diferentes até o diagnóstico.
Os pesquisadores defendem a ampliação do uso de ferramentas estruturadas de vigilância do desenvolvimento e rastreio nas consultas pediátricas. Eles ressaltam, porém, que identificar uma criança em risco precisa ser acompanhado por uma rede preparada para receber o caso e fazer o encaminhamento adequado.







