A formação de profissionais de saúde deve incluir competências para atender populações migrantes e refugiadas, defendem Ana Beatriz Costa Silva e Cynthia França Wolanski Bordin. Para as autoras, o cuidado precisa considerar crenças, valores, idiomas, práticas tradicionais e experiências anteriores dessas pessoas com os serviços de saúde.
As deslocações contemporâneas, muitas delas provocadas por conflitos armados, instabilidade geopolítica e regimes autoritários, ampliam as exigências sobre os países de acolhimento. No atendimento, diferenças culturais e religiosas podem afetar a comunicação clínica, a adesão ao tratamento, os diagnósticos e a continuidade da assistência.
Competência cultural
As autoras definem competência cultural como a capacidade de oferecer um cuidado efetivo e respeitoso, alinhado às características e às práticas de saúde dos usuários. Esse preparo envolve comunicação, sensibilidade ética e compreensão das condições epidemiológicas e sociais das populações atendidas. Não basta, portanto, dominar um idioma.
O profissional também precisa lidar com pessoas cujas trajetórias foram marcadas por rupturas, perdas e reconstruções da própria identidade. Nesse contexto, a atuação não se restringe à aplicação de protocolos: inclui a mediação entre diferentes referências culturais.
No Sistema Único de Saúde (SUS), as novas demandas se somam aos desafios já existentes de acesso, comunicação e equidade. Barreiras linguísticas, concepções diferentes sobre doenças e práticas tradicionais podem dificultar a assistência e comprometer a segurança do cuidado.
Mudanças na formação
Para responder a esse cenário, Ana Beatriz e Cynthia defendem que os currículos integrem conhecimentos técnicos, éticos e sociais. O desenvolvimento do “saber ser”, entendido como o conjunto de atitudes e valores necessários a práticas sensíveis à diversidade, é apresentado como parte indispensável da formação.
As estratégias pedagógicas e os processos de avaliação também devem estar alinhados a esse objetivo. Segundo as autoras, experiências de contato intercultural, incluindo iniciativas de internacionalização colaborativa, podem desenvolver competências globais. Entre elas estão a compreensão de problemas sanitários transnacionais, a atuação em ambientes multiculturais e a integração de diferentes saberes nas decisões clínicas.
Ana Beatriz é enfermeira, professora de Enfermagem da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e Agente de Internacionalização da Escola de Medicina e Ciências da Vida da instituição. Cynthia é farmacêutica, docente de Farmacologia e também Agente de Internacionalização da escola. As duas organizam o livro “Modelos de atenção nas urgências: conexão entre Brasil e Portugal”, publicado pela PUCPRESS.








