Uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos enviou 135 lentes artificiais para o exterior da Estação Espacial Internacional (ISS), onde permaneceram cerca de seis meses expostas às condições da órbita baixa da Terra. O objetivo foi verificar se implantes usados em cirurgias de catarata poderiam resistir a uma viagem espacial de longa duração, como uma futura missão a Marte.
As lentes ficaram sem embalagem e foram colocadas em três posições diferentes. Uma foi exposta ao oxigênio atômico, outra recebeu radiação ultravioleta intensa do Sol e a terceira ficou parcialmente protegida desses fatores. Para comparação, 45 lentes permaneceram na Terra, também sem embalagem.
Após o retorno do material, pesquisadores do Intermountain Ocular Research Center, da Universidade do Utah, analisaram 61 lentes que haviam sido enviadas ao espaço e 20 mantidas na Terra. Entre as amostras expostas, 42 não apresentaram alterações relevantes.
Alterações observadas
Das 19 lentes restantes, oito modelos de acrílico desenvolveram fissuras e rugosidade na superfície, sinais compatíveis com erosão causada pelo oxigênio atômico. Outras cinco ficaram amareladas e passaram a transmitir menos luz em determinados comprimentos de onda.
As seis lentes ajustáveis por luz apresentaram uma aparência descrita pelos pesquisadores como semelhante a uma calçada ou a plástico de bolhas. A equipe ainda não sabe o motivo dessa alteração nem se os danos observados afetariam a visão ou tornariam os implantes inutilizáveis.
Os pesquisadores ressaltam que o resultado não significa necessariamente que as lentes seriam danificadas durante uma viagem a Marte. O teste expôs os implantes diretamente ao ambiente externo e hostil da estação para identificar possíveis formas de falha. Em uma missão, eles seriam transportados protegidos dentro de uma nave espacial. A próxima etapa será determinar quanta proteção é necessária sem aumentar de forma desnecessária o peso e o volume.
Próximas etapas
A cirurgia de catarata fora da Terra ainda está distante. O experimento avaliou apenas a resistência das lentes, não a segurança do procedimento em condições espaciais. Morgan Micheletti, cirurgião oftalmologista e diretor de pesquisa do Berkeley Eye Center, afirmou que uma viagem até Marte pode demorar quase um ano e que talvez não seja realista retornar à Terra para tratar uma catarata, uma lesão ou outro problema ocular.
O próximo teste previsto por Micheletti é avaliar, em períodos curtos de microgravidade durante voos parabólicos, o equipamento que usa ultrassons e líquido para fragmentar e remover a lente natural opaca. Depois, a equipe pretende avançar para testes mais longos em microgravidade e, por fim, para uma experiência cirúrgica em órbita.
Os resultados foram apresentados no domingo, em Londres, durante o congresso da Sociedade Europeia de Cirurgiões de Catarata e Cirurgia Refrativa. Segundo os pesquisadores, esta foi a primeira experiência controlada a expor diretamente ao ambiente externo da ISS diferentes tipos de lentes artificiais modernas e depois devolvê-las à Terra para análise laboratorial.







