Um experimento com camundongos indicou que a psilocibina, substância encontrada em cogumelos alucinógenos, pode proteger os nervos contra danos causados pela quimioterapia. Aplicada antes do tratamento, ela preservou a sensibilidade das patas e reduziu a dor associada à neuropatia periférica induzida pela quimioterapia (NPIQ), sem comprometer a redução dos tumores.
A NPIQ pode provocar sensação de queimação nas mãos e nos pés, dormência, formigamento e perda de sensibilidade. A condição afeta até 60% das pessoas tratadas com medicamentos oncológicos à base de platina, usados contra tumores de ovário e pulmão. Não há uma diretriz padrão para o problema. Em alguns casos, médicos prescrevem duloxetina, mas estudos indicam que o medicamento pode não aliviar a dor de muitos pacientes.
Os resultados foram publicados na sexta-feira, 3, na revista Science. No estudo, duas doses de psilocibina, administradas com intervalo de uma semana, eliminaram a hipersensibilidade nos camundongos. Em outra etapa, os animais receberam a substância antes de cada uma das seis fases de quimioterapia, ao longo de oito meses.
Efeitos observados no experimento
Os camundongos submetidos apenas à quimioterapia apresentaram danos nos nervos periféricos e hipersensibilidade por pelo menos quatro meses. A administração de uma dose de psilocibina antes do tratamento reduziu esse período para cerca de três meses.
A quimioterapia também diminuiu a capacidade dos animais de perceber sensações nas patas e provocou a degeneração das fibras nervosas sensoriais na pele. Nos camundongos que receberam psilocibina, a sensibilidade das patas e as terminações nervosas foram preservadas. A eficácia da quimioterapia contra os tumores não mudou.
Os pesquisadores afirmam que o possível efeito protetor não se restringe aos tratamentos à base de platina. Para investigar o mecanismo, eles analisaram amostras de tecido nervoso de 29 pessoas submetidas a cirurgia reconstrutiva. A quimioterapia paralisou o movimento das mitocôndrias nos neurônios, enquanto o tratamento do tecido com psilocibina manteve essas organelas em movimento.
No corpo humano, a psilocibina se transforma em psilocina, que interage com receptores de serotonina e altera a atividade cerebral. Um próximo ensaio clínico deve avaliar a substância em pessoas em tratamento contra câncer de mama, colorretal e de cabeça e pescoço.
Caso venha a ser usada em ambiente clínico, a aplicação exigirá acompanhamento de terapeutas por até oito horas, devido à desorientação provocada pelo alucinógeno.







