A percepção positiva sobre a própria saúde não acompanha alguns dos principais fatores de risco para câncer entre brasileiros, aponta a pesquisa “A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos”, realizada pelo A.C.Camargo Cancer Center e pela Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados. O levantamento ouviu 2.015 cidadãos com idade a partir de 16 anos em todo o país.
Enquanto 59% dos entrevistados classificam a própria saúde como ótima ou boa, os dados declarados de peso e altura indicam que 63% da população adulta está acima do peso ideal, segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS). O grupo é formado por 37% de pessoas com sobrepeso e 26% com obesidade.
Victor Piana, patologista e CEO do A.C.Camargo Cancer Center, afirma que o excesso de peso é reconhecido pela ciência como fator de risco para mais de dez tipos de câncer, incluindo tumores de intestino, mama, pâncreas e esôfago.
Atividade física e alimentação
A pesquisa também identificou baixa frequência de exercícios. Entre os entrevistados, 42% disseram nunca praticar atividade física. Entre os que se exercitam, a média foi de 2,4 dias por semana. Segundo o levantamento, a prática regular pode reduzir o risco de tumores de intestino e mama, auxiliar no controle do peso e melhorar a resposta do organismo durante e depois do tratamento oncológico.
Na alimentação, 66% afirmaram consumir alimentos frescos, como frutas, verduras, legumes, ovos e carnes, seis dias ou mais por semana. Bebidas açucaradas, ultraprocessados, doces e frituras aparecem, em média, em cerca de 2 dias semanais. O estudo relaciona dietas ricas em vegetais e fibras a menor risco de câncer de intestino e associa ultraprocessados e carnes processadas a uma direção oposta.
Para metade dos entrevistados, há obstáculos para manter uma alimentação saudável. O preço alto de carnes frescas, frutas e vegetais foi citado por 29%, enquanto 21% apontaram falta de tempo e cansaço da rotina.
A renda altera o principal impedimento. Entre as pessoas que recebem até um salário mínimo, o preço é uma barreira para 40%. Na faixa acima de cinco salários mínimos, esse índice cai para 10%, e o tempo passa a ser citado por 39%.
Álcool e percepção de saúde
Quanto ao consumo de bebidas alcoólicas, 58% disseram não beber. Outros 30% relataram consumir álcool de um a dois dias por semana, e 5% afirmaram beber de cinco a sete dias. A Organização Mundial da Saúde classifica o álcool como cancerígeno e o associa a tumores de boca, garganta, esôfago, fígado, intestino e mama. A combinação com o cigarro eleva os riscos, segundo as informações apresentadas na pesquisa.
O levantamento encontrou uma diferença na percepção de saúde entre os grupos. Consideram a própria saúde ótima ou boa 64% dos que bebem de cinco a sete dias por semana, contra 58% dos que não bebem. A pesquisa ressalta que esse resultado representa a percepção dos participantes e não necessariamente suas condições objetivas de saúde.
Piana afirma que excesso de peso, sedentarismo, cigarro e álcool podem se instalar silenciosamente na rotina. Para ele, esses fatores são modificáveis e a mudança de hábitos reduz as chances de um diagnóstico de câncer no futuro.
Metodologia
A Nexus entrevistou as pessoas face a face nas 27 Unidades da Federação. A amostra foi controlada por quotas de sexo, idade, PEA, região e condição do município. A margem de erro total é de 2 p.p., com intervalo de confiança de 95%.
Depois da coleta, foi aplicado um fator de ponderação para corrigir possíveis distorções em relação ao plano amostral. Por causa do arredondamento, a soma dos percentuais pode variar de 99% a 101%. O trabalho de campo ocorreu entre 25 e 30 de junho de 2026. O estatístico responsável é Neale El-Dash, Conre 8656-A.








