O escritor e roteirista Celso Tádhei indica cinco romances de humor protagonizados por personagens que vivem à margem, atravessam diferentes lugares e expõem contradições do mundo considerado normal. A seleção foi organizada por ordem de publicação e reúne obras que, para ele, combinam humor, comoção e afinidades entre si.
Pícaros e malandros
Lazarilho de Tormes, de autoria anônima, é apresentado como um precursor do romance satírico e realista. Escrito no século 16, o livro acompanha Lázaro, um menino pobre que recorre à esperteza, às mentiras e à malandragem para conseguir comida e abrigo. Enquanto sofre nas mãos de seus amos, ele revela problemas da nobreza, do clero e de uma sociedade sustentada pelas aparências. Publicado em 1554, o romance entrou no Índice de Livros Proibidos da Inquisição espanhola cinco anos depois.
Em Macunaíma, Mário de Andrade acompanha um malandro preguiçoso em uma sequência de aventuras pelo Brasil. A obra combina mitologia indígena, cultura popular, crítica social, libido e uma linguagem inventiva. Para Tádhei, o personagem funciona como um retrato irreverente das contradições brasileiras, com humor debochado e liberdade narrativa.
Errantes em mundos absurdos
Pilatos, de Carlos Heitor Cony, acompanha Álvaro, que perde o pênis nas primeiras páginas e passa a carregá-lo em um vidro. Ambientado em um Rio de Janeiro da ditadura, o romance conduz o protagonista por episódios grotescos, violentos e absurdos. A obra é descrita como uma sátira sombria e existencial sobre um homem que perdeu tudo, inclusive as ilusões.
Em Galvez, imperador do Acre, Márcio Souza narra as aventuras de um espanhol sedutor e oportunista durante a febre da borracha. Galvez atravessa a Amazônia, envolve-se em amores, intrigas políticas e conspirações, até se tornar imperador do Acre. O romance mistura ficção e realidade para satirizar o poder, a política e os impulsos humanos.
A peregrinação de Viramundo
O grande mentecapto, de Fernando Sabino, fecha a lista com Geraldo Viramundo, também chamado de Giramundo, Virabosta, Caraminhola, Merdakovski e General Búlgaro. O andarilho percorre cidades de Minas Gerais e se envolve em aventuras, amores e confusões com religiosos, militares, autoridades e estudantes.
Tádhei considera Viramundo o personagem mais quixotesco da seleção: inocente, idealista, louco e lúcido ao mesmo tempo. O romance usa suas peregrinações para expor o absurdo da sociedade e das instituições. O autor da indicação observa ainda que algumas passagens podem causar estranhamento hoje e merecem ser questionadas e discutidas.








