São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Brasil

Aliança liderada por Trump amplia pressão sobre países latino-americanos

Roberto Uchôa afirma que o Escudo das Américas tem impacto limitado nas operações contra facções, mas amplia a disputa política na região.

Aliança liderada por Trump amplia pressão sobre países latino-americanos

A entrada de Peru, Chile e Colômbia no Escudo das Américas amplia para 14 países da América Latina e do Caribe, além dos Estados Unidos, a aliança que classifica o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Para o especialista em segurança pública Roberto Uchôa, pesquisador da Universidade de Coimbra, a iniciativa tem impacto principalmente político e simbólico.

Os três países foram anunciados como integrantes nesta terça-feira (22), em Nova York. Criado em março por iniciativa do presidente Donald Trump, o grupo reúne governos alinhados a Washington na região.

Uchôa afirma que o efeito prático da medida pode ser limitado porque já existe cooperação entre o Brasil e países onde essas organizações atuam. O trabalho ocorre principalmente por meio da Ameripol, associação americana de polícias, e da Interpol. Na avaliação dele, as sanções aplicadas pelo governo dos Estados Unidos podem produzir consequências mais amplas do que medidas adotadas por países de menor dimensão econômica.

Pressão sobre governos da região

O especialista considera que a expansão da aliança expõe interesses geopolíticos e econômicos dos Estados Unidos. Segundo ele, Donald Trump trata a América Latina como área de influência americana e tem adotado uma postura mais direta na defesa dos interesses de Washington.

Uchôa também aponta a atuação do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em tentativas de interferência eleitoral. Para o pesquisador, o atual governo dos Estados Unidos demonstra de forma mais explícita o interesse das Big Techs e dos Estados Unidos na América Latina.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva rejeita a classificação defendida por Washington. Ele sustenta que o combate ao crime deve respeitar a autonomia e a soberania dos países, posição reiterada em discurso na Assembleia Geral da ONU. A campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL), por outro lado, defendeu a adesão do Brasil à iniciativa.

Na análise de Uchôa, Brasil e México resistiram à proposta dos Estados Unidos, enquanto países menores estariam mais sujeitos à pressão por dependerem mais do comércio exterior. O Brasil teria maior capacidade de manter essa posição por causa do tamanho de sua economia, de sua importância internacional e da menor dependência do comércio com os Estados Unidos.

Disputa pelo alinhamento do Brasil

Para o especialista, o Brasil ocupa posição central nos planos americanos por ser uma das maiores economias do mundo, ter grandes reservas de petróleo e manter laços cada vez mais profundos com a economia chinesa. O país também é apresentado como competidor da economia americana, sobretudo nas exportações agrícolas, e como fornecedor de insumos básicos e de produtos ligados às exportações chinesas.

Uchôa avalia que o apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro não se limita à afinidade ideológica. Na visão dele, os Estados Unidos buscariam um governo brasileiro alinhado de forma imediata aos interesses americanos. Flávio Bolsonaro e seu irmão, Eduardo, defendem, segundo o especialista, uma aproximação automática com os Estados Unidos e a abertura do país à exploração por empresas e pelo governo americano.

Crime organizado e violência

O pesquisador afirma que os dados apontam redução das taxas de homicídio, roubos e outros crimes violentos no Brasil nos últimos anos. Ao mesmo tempo, ele cita o crescimento dos golpes digitais, das fraudes eletrônicas e dos crimes financeiros. Também permanece o domínio territorial de organizações criminosas sobre determinadas comunidades.

Para Uchôa, o país conhece os problemas e as medidas necessárias para enfrentá-los, mas falta vontade política. Ele considera irrealista a expectativa de que os Estados Unidos enviem forças para entrar em comunidades controladas pelo crime organizado e libertar a população.

Na avaliação do especialista, o combate deveria incluir a corrupção e a infiltração de organizações criminosas em instituições políticas e estatais. Ele afirma que o problema não se restringe ao PCC e ao Comando Vermelho: envolve também grupos ligados ao contrabando de cigarros, ao combustível adulterado, à sonegação fiscal, à falsificação de bebidas, ao garimpo ilegal e aos crimes financeiros.

Uchôa relaciona essa infiltração a diferentes esferas do poder, ao financiamento de campanhas políticas e a fraudes financeiras associadas à lavagem de dinheiro do crime organizado. Por isso, defende que as ações não se concentrem apenas no crime armado visível no cotidiano, mas alcancem também as dimensões financeira, fiscal e econômica das redes criminosas.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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