O Partido Missão organiza sua comunicação como um universo de personagens, memes e referências de games, em vez de priorizar a apresentação de um programa político. A avaliação é do cientista político Frederico Celentano, que analisa a estratégia associada a lideranças do Movimento Brasil Livre (MBL).
Um dos principais símbolos é Fely Missionária, personagem com visual de anime e estética “kawaii”, palavra japonesa usada para designar algo fofo. Para Celentano, a aparência afetiva funciona como uma embalagem para uma linguagem agressiva, apresentada com humor, sarcasmo e referências à violência.
O desempenho do candidato Renan Santos entre os jovens é usado como um indicador da capacidade de mobilização dessa comunicação. Na pesquisa Atlas Intel de quarta-feira (23), ele aparece com 4,5% das intenções de voto. Entre eleitores de 16 a 24 anos, o índice chega a 21,5%.
Meme como identidade política
A operação comunicacional é associada a Pedro D’eyrot, ex-integrante do grupo de funk Bonde do Rolê, que se define como “engenheiro de narrativas” do Missão. Em um vídeo, ele afirma que o custo de produção de conteúdos com ferramentas de inteligência artificial tende a zero e defende que a militância deve “forçar a narrativa”.
Na análise, Fely combina críticas à política tradicional, insultos geracionais e uma fantasia punitiva. O discurso estabelece uma divisão entre “eles” e “nós”: de um lado, aparecem figuras associadas ao centro político e a gerações mais velhas; de outro, uma juventude digital apresentada como irônica e agressiva.
Celentano afirma que essa dinâmica transforma o discurso político em meme, personagem, clipe e piada interna. A referência ao “Bobson”, repetida em falas públicas de Renan Santos, representa o brasileiro pobre que não ascendeu, gasta com o “tigrinho” e não consegue se tornar motorista de aplicativo. Segundo a análise, ele é simultaneamente alvo de recrutamento e objeto de desprezo.
O autor relaciona essa estratégia ao conceito de política do desejo frustrado, formulado pelo psicanalista Wilhelm Reich ao analisar o fascismo alemão nos anos 1930. Nesse modelo, a energia de pessoas excluídas seria mobilizada não para questionar as estruturas de exclusão, mas para alimentar um projeto de poder.
Um universo de símbolos
Além de Fely, o Missão usa fotomontagens de Renan Santos em poses heroicas, com referências visuais à propaganda revolucionária e à iconografia militar. Outra composição reúne um monólito com a bandeira do partido, uma onça-pintada, representações das três matrizes étnico-históricas do Brasil e uma cidade dourada sob o Cristo Redentor.
Para Celentano, essas imagens transformam processos históricos como colonização, escravidão e expropriação territorial em uma cena harmoniosa. Negros e indígenas aparecem, nessa leitura, como elementos estéticos do projeto, e não como sujeitos históricos com demandas, conflitos e direitos.
O conjunto é descrito como um “lore”, termo usado em games e séries para designar as narrativas e mitologias de um universo ficcional. Renan Santos assume o papel de líder épico; Fely, o de mascote violenta e ícone geracional; a onça, o de animal totêmico; e o monólito, o de marco civilizacional.
A conclusão do cientista político é que o eleitor passa a ser tratado como fã, jogador e participante de uma piada interna. A mobilização ocorre por meio de símbolos, pertencimento e compartilhamento, enquanto a comunicação pode se proteger da crítica ao se apresentar como brincadeira ou estética.








