A inteligência artificial aplicada à saúde começa a avançar de sistemas que apenas respondem perguntas para ferramentas capazes de executar tarefas. Esses sistemas podem acionar fluxos, organizar agendas, priorizar contatos, acompanhar pendências e conectar pessoas aos serviços de que precisam. Para Victor Marcondes, essa mudança torna a governança parte do próprio cuidado.
A tecnologia pode reduzir a sobrecarga das equipes e diminuir a dependência de planilhas, telefone e repetidas tentativas de contato. Agentes de IA já conseguem agendar consultas, confirmar presença e orientar etapas administrativas. Ao assumir atividades repetitivas, podem liberar enfermeiros, médicos e outros profissionais para tarefas que exigem escuta, julgamento clínico e vínculo humano.
O uso da IA, porém, não deve ser orientado apenas pela eficiência. Uma automação mal desenhada pode enviar mensagens fora de contexto, tratar pessoas como se tivessem as mesmas necessidades e reproduzir falhas dos processos existentes. Na saúde, esses problemas podem gerar ansiedade, reduzir a confiança e afastar alguém do atendimento.
Marcondes defende que cada agente tenha finalidade e escopo definidos. A capacidade técnica de executar uma tarefa não significa, por si só, autorização para fazê-la. A IA pode organizar informações, apoiar fluxos e facilitar o acesso, mas avaliações clínicas, decisões terapêuticas e análises individuais devem continuar sob responsabilidade de profissionais habilitados.
O uso de dados também precisa seguir critérios de finalidade, necessidade, segurança e controle de acesso. Informações de saúde registram a história, as vulnerabilidades e as necessidades de uma pessoa, e não devem ser tratadas apenas como recursos para melhorar indicadores operacionais.
Outro requisito é a rastreabilidade. As organizações devem conseguir identificar quais dados foram considerados, que ação foi executada, quando isso ocorreu, qual regra foi aplicada e qual foi o resultado. A supervisão humana precisa ser planejada desde o início, com definição das situações que exigem encaminhamento, dos responsáveis pelas exceções e da forma de revisão dos critérios.
Para avaliar os resultados, não basta contabilizar mensagens enviadas ou tarefas automatizadas. É necessário verificar se a pessoa conseguiu acessar o serviço, recebeu orientação no momento adequado, teve continuidade na jornada e se a equipe ganhou disponibilidade para atuar onde sua presença é mais necessária.
Na avaliação de Victor Marcondes, a adoção de IA em processos de saúde envolve áreas clínicas, operacionais, jurídicas, de segurança, finanças e governança. O retorno da tecnologia não se limita à redução de custos: também está na construção de uma operação mais previsível e transparente, capaz de apoiar o cuidado sem substituir a responsabilidade humana.
Victor Marcondes é cofundador, CFO e DPO da Nilo.








