São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Brasil

Museu do Marajó mantém acervo e memória comunitária após reabertura

Criado por Giovanni Gallo, o museu reúne peças arqueológicas e registros da vida marajoara em Cachoeira do Arari.

O Museu do Marajó reabriu em 2022, após quatro anos fechado para adequações de segurança, mas ainda não consegue expor todo o acervo. Parte das peças permanece em uma reserva técnica na casa ao lado, pertencente à Associação do Museu do Marajó. A entidade é formada por moradores de Cachoeira do Arari, entre eles Zezé, que trabalhou com Giovanni Gallo.

O espaço foi criado a partir da relação do padre italiano com a população do arquipélago. Nascido em Turim, em 1927, Gallo chegou ao Brasil em 1970, depois de atuar em projetos sociais na Sardenha e na Suíça. Trabalhou na Bahia e no Maranhão antes de se mudar para o Marajó.

Em Santa Cruz do Arari, ele aprendeu a pescar, acompanhou a rotina dos moradores e estudou crenças e costumes locais. Também se dedicou aos vestígios de sociedades indígenas que viveram na região antes da chegada dos portugueses, no ano 1500. Entre os anos 800 e 1300, esses povos desenvolveram práticas como manejo de terra, construção de lagos artificiais e rituais funerários e de fertilidade. Como não deixaram registros escritos, as cerâmicas encontradas no solo são uma das principais fontes para os estudos sobre eles.

Um acervo formado pela comunidade

O primeiro conjunto de peças surgiu depois que Gallo recebeu artefatos arqueológicos, incluindo fragmentos de cerâmica decorada. Moradores passaram a levar ao padre objetos encontrados em suas propriedades, como cerâmicas, fósseis e até um bezerro de duas cabeças.

O chamado O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari foi inaugurado em 1977, durante o Círio de Nazaré. A proposta era criar um espaço feito pelo povo e voltado à valorização da cultura local. Após ameaças e conflitos políticos e religiosos, Gallo deixou Santa Cruz do Arari. O museu e o acervo foram transferidos para Cachoeira do Arari, onde o novo prédio foi instalado em uma antiga fábrica restaurada em mutirões pelos moradores. A inauguração ocorreu em 1987.

Além das peças arqueológicas, o museu passou a registrar a vida marajoara, com referências a crenças, culinária, vestimentas, hábitos e formas de falar. Zezé resume a prioridade de Gallo: “a principal peça do museu era o homem marajoara”. O espaço também ficou conhecido pelos “computadores caipiras”, estruturas de madeira que permitiam ao visitante tocar, abrir e descobrir informações.

Bordado e autonomia

Gallo também publicou o livro Motivos ornamentais da cerâmica marajoara, com explicações sobre os grafismos encontrados nas peças e gráficos de ponto cruz. A partir desse material, criou um grupo de bordadeiras cadastradas no museu. Elas recebiam material para trabalhar em casa e eram pagas pelos bordados, que depois eram aplicados em vestimentas comercializadas.

Para Zezé, a iniciativa foi uma forma de ampliar a autonomia das mulheres do Marajó. O trabalho integrava a proposta do museu de apresentar a cultura local a partir da experiência dos próprios moradores.

Fechamento e retomada

Gallo morreu em 7 de março de 2003, aos 76 anos, no Hospital Porto Dias, em Belém. Seu corpo foi levado para Cachoeira do Arari, onde ele foi sepultado no quintal do Museu do Marajó.

Depois da morte do padre, a associação assumiu a manutenção do patrimônio. Com apoio da prefeitura para pagar a conta de luz, os moradores mantiveram o espaço aberto. Reparos maiores, porém, ficaram além dos recursos disponíveis.

Em 2018, após o incêndio do Museu Nacional, o Ministério Público acionou uma vistoria do corpo de bombeiros no Museu do Marajó. O laudo, entregue em 12 de dezembro, apontou problemas no telhado, rachaduras, infestação de cupins e ausência de um sistema de prevenção de incêndios adequado. O prédio foi fechado, e o governador Helder Barbalho assinou um termo de compromisso com a reforma. A Secretaria de Cultura do Pará passou a tutelar o museu.

O acesso continua sendo um obstáculo. A partir de Salvaterra, o trajeto é interrompido pelo Rio Camará, que tem 100 metros de uma margem à outra. Sem ponte, os visitantes dependem de uma balsa e podem esperar uma hora pela travessia. A licitação da ponte foi aprovada em 2022, mas a construção ainda não ocorreu.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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