O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) reconheceu que a temperatura média da Terra deve ultrapassar 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais até 2030. Em relatório publicado na quarta-feira (2), o órgão defendeu uma estratégia de “ultrapassagem, pico e declínio”, com o objetivo de limitar o aquecimento, reduzir os danos e retornar a 1,5°C ou menos até 2100.
A proposta não representa o abandono do Acordo de Paris, tratado assinado por mais de 190 países em 12 de dezembro de 2015. O compromisso busca manter o aquecimento global bem abaixo de 2°C e, idealmente, em 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais até o fim do século 21.
António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, afirmou que o aumento acima de 1,5°C deve ser o menor e mais breve possível. Para ele, isso exige maior ambição dos países.
As dificuldades do acordo
O Acordo de Paris determina que os países renovem suas Contribuições Nacionalmente Determinadas, conhecidas como NDCs, a cada cinco anos. Desde a ratificação do tratado, em 2016, porém, houve dificuldades para transformar as promessas em ações.
O relatório Emissions Gap Report, publicado pelo Pnuma em novembro de 2025, registrou novo recorde nas emissões de gases de efeito estufa: 57,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2024. As emissões cresceram 2,3% em relação a 2023. Além disso, 25% dos países que ratificaram o acordo não renovaram suas NDCs em 2025.
O financiamento climático também permanece abaixo da meta inicial dos países em desenvolvimento. Na COP29, realizada em Baku em 2024, os países ricos estabeleceram o pagamento de US$ 300 bilhões anuais para ações de combate e adaptação, enquanto a meta reivindicada era de US$ 1,3 trilhão. No ano seguinte, a COP30, em Belém, definiu a triplicação do financiamento para adaptação climática.
O novo cenário climático
2024 foi considerado o ano mais quente já registrado, após uma sequência de 10 anos com temperaturas médias recordes. A temperatura média do planeta chegou a 15,1ºC, e o ano seguinte ficou 0,02ºC abaixo desse valor. O meteorologista Marcio Cataldi, da Universidade Federal Fluminense, afirmou que 2026 deve ultrapassar novamente 1,5°C, com a atuação conjunta de El Niño, La Niña e do aquecimento causado por atividades humanas.
No cenário mais otimista apresentado pelo Pnuma, o aquecimento atingiria um pico de 1,8ºC e começaria a cair. Com as políticas atuais, contudo, o aumento pode chegar a 2,6ºC em relação aos níveis pré-industriais.
Temperaturas acima de 1,5ºC podem acelerar a elevação do nível do mar, aumentar a probabilidade de colapso de ecossistemas como recifes de corais e intensificar ondas de calor e incêndios florestais. Também podem provocar mudanças na criosfera, a camada da superfície terrestre formada por gelo e neve.
Medidas para reduzir o aquecimento
O Pnuma recomenda ações simultâneas de mitigação, com redução das emissões, e adaptação das sociedades e dos sistemas naturais aos impactos já existentes. Entre as prioridades está o fim da dependência de combustíveis fósseis e sua substituição por fontes renováveis de energia.
Em 2022, os subsídios globais para a exploração de combustíveis fósseis chegaram a US$ 7 trilhões, equivalentes a cerca de 7,1% do PIB mundial naquele período. O relatório também aponta a importância da remoção de dióxido de carbono por meio de reflorestamento e tecnologias de captura de gases, embora essas medidas não sejam suficientes sozinhas.
Pedro Torres, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual de São Paulo e integrante do Grupo de Trabalho II do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, afirmou que cada décimo adicional de aquecimento eleva os riscos, os danos e as perdas. Para reduzir a temperatura em 0,1°C, seria necessário remover e armazenar aproximadamente o equivalente a cinco anos das emissões globais atuais de CO2.
O acordo final da COP30, chamado de Pacote de Belém, trouxe avanços na adaptação e na transição energética justa, mas não definiu um mapa do caminho para o desmatamento e a transição dos combustíveis fósseis. A COP31 será realizada entre 9 e 20 de novembro em Antalya, na Turquia, com negociações lideradas pela Austrália.
Em comunicado de janeiro, André Corrêa do Lago, presidente da COP30, defendeu um “multilateralismo em dois níveis”, com consenso entre os países e implementação mais rápida das medidas para frear o aquecimento global.





