SVALBARD — Dentro de uma montanha no Ártico, na Noruega, o Cofre Global de Sementes de Svalbard armazena cópias de segurança de variedades agrícolas mantidas por bancos genéticos de diferentes partes do mundo. A coleção inclui sementes de arroz, milho, trigo, feijão e outros cultivos, inclusive variedades que quase deixaram de ser plantadas.
O cofre funciona como uma reserva dos bancos genéticos, sem substituí-los. Se uma coleção for perdida por causa de guerra, incêndio, terremoto, furacão ou outra emergência, a instituição responsável pelo depósito pode solicitar a devolução do material armazenado. As sementes continuam pertencendo às organizações que as enviaram e não podem ser retiradas ou distribuídas por outros países.
A conservação também permite preservar características que podem ser úteis em condições futuras. Variedades pouco utilizadas atualmente podem contribuir para o desenvolvimento de plantas mais tolerantes à seca, ao calor, ao frio e a novas doenças. “Se elas não forem cultivadas, mais cedo ou mais tarde vão desaparecer”, afirma Fuad Gaši, coordenador do Banco Global de Sementes de Svalbard.
Uma reserva que já foi acionada
O conflito na Síria mostrou a utilidade desse sistema. Pesquisadores do Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Áreas Secas (Icarda) precisaram abandonar um banco genético que funcionava no país. Antes disso, parte da coleção havia sido duplicada e enviada para Svalbard.
As sementes foram retiradas do cofre e usadas na reconstrução das coleções em instalações no Líbano e no Marrocos. O episódio também evidenciou o risco de manter uma coleção inteira em um só local, já que bancos genéticos podem levar décadas para reunir e conservar materiais importantes para a agricultura.
Sarada Krishnan, diretora de programas do Crop Trust, organização que participa da operação de Svalbard, afirma que cada país mantém seus próprios bancos genéticos. O cofre do Ártico acrescenta uma camada de proteção para que as coleções possam ser recuperadas se os exemplares originais forem perdidos.
Participação brasileira
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), empresa pública federal de pesquisa ligada ao Ministério da Agricultura, mantém bancos genéticos em diferentes unidades do Brasil e um acervo nacional em Brasília. Parte desse material também é enviada para Svalbard como cópia extra de segurança.
Este ano, o Brasil tem pelo menos 8.149 amostras depositadas no cofre norueguês. Arroz, milho e feijão são predominantes, mas o acervo também reúne soja, trigo, caju, fava, amendoim, mamona e gergelim.
As coleções brasileiras podem ser usadas tanto em situações extremas quanto em pesquisas para problemas que já afetam a produção agrícola. Silvia Massruhá, presidente da Embrapa, cita a vassoura-de-bruxa da mandioca no Amapá: diante do avanço da doença, pesquisadores recorreram a materiais conservados nos bancos genéticos para estudar variedades mais resistentes.
“É para garantir a segurança alimentar”, afirma Massruhá. A estratégia também pode apoiar o desenvolvimento de plantas adaptadas a condições climáticas diferentes das atuais.




