São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Ciência

A ciência por trás do mito que levou o absinto à clandestinidade

Estudos, campanhas políticas e disputas econômicas ajudaram a transformar uma bebida popular em símbolo de perigo e proibição.

A ciência por trás do mito que levou o absinto à clandestinidade
Foto: Gabe Rivas e Juliana Krauss/Superinteressante

O absinto voltou a ser legalizado na Suíça em 2005 e, na França, em 2011, depois de décadas associado a alucinações, violência e decadência moral. Estudos posteriores indicaram que a tujona, substância apontada como responsável pelos efeitos do destilado, não aparecia em concentração suficiente para produzir esses efeitos.

A bebida é preparada com a infusão de ervas em álcool, entre elas anis, funcho e absinto. Seu teor alcoólico varia de 45% a 75%. No ritual tradicional, água gelada passa por um cubo de açúcar colocado sobre uma colher perfurada. A mistura fica turva por causa do chamado efeito louche: os óleos das ervas, que se dissolvem no álcool, formam gotículas quando a concentração alcoólica diminui.

Da bebida respeitável ao alvo político

O absinto se tornou popular na França depois que tropas enviadas à Argélia, em 1830, passaram a consumi-lo como preventivo de disenteria e malária. O hábito chegou aos cafés parisienses e, no século 19, a chamada hora verde, entre 17h e 19h, era vista como um momento aceitável para beber antes do jantar.

A imagem da bebida mudou quando a filoxera destruiu vinhedos e reduziu a oferta de vinho. O absinto ganhou espaço entre as classes populares e passou a ser relacionado ao alcoolismo e a problemas de saúde pública. Artistas como Oscar Wilde, Ernest Hemingway, Vincent van Gogh, Émile Zola e Arthur Rimbaud também ajudaram a consolidar sua presença no imaginário cultural.

Em 1903, a Academia Nacional de Medicina da França classificou o absinto como a mais perigosa das substâncias. Médicos relacionavam o consumo a alucinações, convulsões e insanidade, enquanto políticos o associavam ao declínio físico, intelectual e moral dos trabalhadores.

O consumo francês cresceu de 700 mil litros por ano em 1874 para 36 milhões em 1910. Vinicultores também participaram da campanha contra a bebida, apresentando o vinho como produto francês e o absinto como um veneno estrangeiro.

Proibição e revisão das evidências

Um caso ocorrido em Commugny, na Suíça, acelerou a proibição. Em 28 de agosto de 1905, Jean Lanfray matou a mulher e as duas filhas. Os promotores atribuíram o crime a uma suposta loucura causada pelo absinto, embora Lanfray também tivesse consumido sete taças de vinho e seis doses de conhaque. A Suíça proibiu a bebida na região e transformou o veto em lei nacional em 1910.

Na França, a venda foi proibida no primeiro mês da Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1914. A medida foi apresentada como uma forma de proteger a população e aumentar a disciplina. Em 1922, bebidas semelhantes voltaram a ser permitidas, desde que não contivessem tujona.

Uma análise do Laboratório de Investigação Química e Veterinária, órgão federal alemão, concluiu que amostras antigas não tinham tujona em quantidade suficiente para causar euforia. O Museu de Pontarlier também afirma que parte das evidências contra a substância vinha de testes em que ela era injetada diretamente no cérebro de camundongos. A interpretação mais aceita é que os efeitos atribuídos ao absinto resultavam do álcool.

Durante a proibição, produtores de Val-de-Travers, na Suíça, mantiveram a fabricação clandestina. Garrafas eram deixadas em pontos da floresta, e a bebida também era servida escondida em canecas opacas. Hoje, o mercado global do absinto é avaliado em US$ 318 milhões em 2025 e deve crescer 7,2% ao ano até 2034. A bebida também é produzida no Brasil.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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