MUCAJAÍ — Pesquisadores do Laboratório de Imunologia e Toxinologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificaram duas espécies de escorpiões até então desconhecidas pela ciência na região da Cachoeira do Evandro, em Roraima. Os animais vivem na base de um inselberg, uma elevação rochosa isolada, e foram nomeados Cayooca puchus e Brotheas cernii.
A descrição científica foi publicada em 6 de junho de 2026, na revista Diversity. O trabalho reuniu expedições e coletas realizadas ao longo de vários anos, com exemplares de diferentes idades e sexos. Em outubro de 2022, os pesquisadores usaram lanternas ultravioleta para localizar os escorpiões durante a noite. A técnica funciona porque o corpo desses animais fluoresce sob esse tipo de luz.
Os exemplares foram comparados com espécies já conhecidas. A análise considerou tamanho, coloração, granulação corporal e estruturas usadas na identificação taxonômica. Pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco, do Instituto Butantan e da Universidade Nacional Autônoma do México também avaliaram e revisaram as características. As diferenças observadas sustentaram a classificação das duas espécies como novas para a ciência.
Características das espécies
As duas espécies pertencem à família Chactidae, encontrada principalmente nas Américas. No Brasil, o grupo ocorre sobretudo na Amazônia e inclui os gêneros Brotheas e Cayooca.
Cayooca puchus mede entre 3,2 e 5,1 centímetros. O gênero Cayooca possui apenas duas espécies reconhecidas atualmente. A nova espécie se diferencia pela granulação corporal mais densa e por carenas ventrais marcadas, que são linhas ou cristas elevadas na superfície do corpo dos escorpiões. O nome puchus foi escolhido a partir de uma expressão de espanto associada à surpresa da descoberta.
Brotheas cernii mede entre 4,5 e 5,7 centímetros. A espécie tem corpo menor e granulação mais intensa que espécies próximas. Seu nome homenageia o biólogo Felipe Augusto Cerni e sua família, além de registrar sua contribuição aos estudos sobre venenos de escorpiões.
Até o momento, os dois animais foram encontrados apenas na base do inselberg. Isso não permite concluir que estejam restritos à área. Novas expedições poderão localizar outras populações ainda não amostradas. Segundo a equipe, o isolamento da formação rochosa dentro da floresta pode limitar a dispersão e favorecer diferenças entre populações ao longo do tempo. Estudos específicos ainda são necessários para verificar essa hipótese.
Biodiversidade e saúde pública
A descoberta ocorre em uma região que ainda apresenta lacunas de amostragem. Roraima tem áreas pouco estudadas, e a identificação de duas espécies na mesma área indica que outras podem permanecer sem registro científico. Descrever uma espécie é o primeiro passo para reconhecer sua existência, especialmente em um cenário de pressão ambiental crescente.
Os escorpiões também têm importância para a saúde pública brasileira. Em 2025, o Brasil registrou 225.695 acidentes envolvendo esses animais, segundo dados do Painel Epidemiológico do Ministério da Saúde. O número correspondeu a mais de 65% dos acidentes com animais peçonhentos registrados naquele ano.
O Ministério da Saúde aponta maior ocorrência de acidentes nas regiões Nordeste e Sudeste. Na região Norte, Tityus obscurus é o principal causador de acidentes e óbitos. As duas espécies recém-descritas pertencem à família Chactidae e não estão entre as principais espécies de importância médica.
Os pesquisadores já iniciaram a investigação das moléculas presentes no veneno de Cayooca puchus e Brotheas cernii. Essas substâncias podem interessar ao desenvolvimento de inseticidas biológicos e a aplicações farmacêuticas e biomédicas.
Como são sensíveis a mudanças de temperatura e umidade, os exemplares vivos permaneceram na Universidade Federal de Roraima. Os venenos foram coletados e estão em análise na Unesp. Novas expedições a Roraima devem investigar também aranhas e barbeiros. A pesquisa recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por meio do Programa BIOTA-FAPESP.







