São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Economia

Serviços e despesas da classe média ganham peso na leitura da inflação

Itens como energia, plano de saúde e passagens aéreas concentram parte relevante da inflação e podem afetar a avaliação do governo.

Serviços e despesas da classe média ganham peso na leitura da inflação

A energia elétrica residencial lidera a contribuição para a inflação quando se considera, ao mesmo tempo, o aumento de preço e a participação de cada item no orçamento das famílias. A passagem aérea aparece em seguida, com uma alta de quase 42%, apesar de ter peso menor na cesta de consumo.

A avaliação considera os dez produtos e serviços que mais contribuíram para o IPCA nos últimos 12 meses. Juntos, eles representam mais de 2,1 pontos percentuais dos 4,4% acumulados pelo índice. O IPCA de agosto de 2026 será divulgado nesta sexta-feira (11).

A inflação brasileira está dentro do teto da meta, de 4,5% ao ano. Ainda assim, economistas e pesquisadores avaliam que os preços de despesas recorrentes podem influenciar a percepção dos eleitores sobre os governos nas eleições deste ano.

Peso no orçamento muda o efeito da alta

O IPCA combina a variação de preços com o peso relativo dos produtos na cesta de consumo. Essa composição é definida a partir da Pesquisa de Orçamentos Familiares, realizada pelo IBGE por amostragem para identificar os hábitos de consumo da população.

Por isso, uma alta expressiva nem sempre tem grande impacto no índice. O bacalhau subiu 15,19% e o console de videogame, 13,18%, mas ambos têm participação pequena no orçamento das famílias. A energia elétrica residencial, por sua vez, teve alta de 8,85% e exerce influência maior por ser uma despesa mais relevante na cesta.

Além de energia elétrica e passagem aérea, o grupo com maior contribuição inclui gasolina, plano de saúde, aluguel residencial, empregado doméstico, refeições feitas fora de casa, ensino fundamental, lanches fora de casa e perfume.

Pressão sobre a classe média

Lucio Rennó, professor da Universidade de Brasília, afirma que a maioria desses itens integra o cotidiano da classe média. Para ele, a redução da capacidade de consumo e do padrão de vida pode alimentar insatisfação social e política entre essa parcela da população.

A cesta da classe média tem maior presença de serviços e despesas do dia a dia, enquanto o consumo das famílias de menor renda é mais concentrado em itens básicos. Rennó também afirma que a percepção de perda de status pode se voltar contra o Executivo.

“Esses itens ajudam a entender o mau humor da classe média com o PT”, diz o professor. Ele cita o plano de saúde como uma despesa central para esse grupo e afirma que há percepção de que a classe média assume custos de políticas voltadas às camadas mais vulneráveis sem receber contrapartidas equivalentes em serviços públicos ou estabilidade econômica.

Janaína Feijó, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, diz que o salário é o indicador mais relacionado à aprovação de um governo. A renda nominal, porém, pode perder poder de compra diante do custo das dívidas e da alta de preços. Para ela, as redes sociais reforçam a sensação de perda de status ao ampliar a expectativa sobre o padrão de consumo.

Inflação não explica tudo

Frederico Batista Pereira, professor da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, nos EUA, afirma haver correlação entre a variação do IPCA e a aprovação presidencial. Ele pondera, no entanto, que essa relação pode não ser suficiente para produzir um efeito político mensurável ou determinante.

O pesquisador considera pertinente analisar os dados por faixa de renda. O segmento entre dois e cinco salários mínimos concentra boa parte do eleitorado disputado no Sudeste, região estratégica para a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Benjamin Rosenthal, professor da Fundação Getulio Vargas, avalia que os aumentos desses itens, isoladamente, não têm importância tão grande. Ele também chama atenção para mudanças na composição das despesas, como a expansão das bets, que passaram a ocupar espaço no orçamento mesmo com preços relativamente controlados.

Para Rosenthal, a frustração resulta não apenas da inflação de itens importantes, mas também da falta de dinheiro para pagar por eles e do surgimento de novos gastos. Ele ressalta que a inflação não aparece entre as três principais preocupações do eleitorado em levantamentos de opinião pública, atrás de segurança pública e saúde.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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