BRUXELAS — Ai Weiwei alertou para os riscos do uso da inteligência artificial como instrumento de censura e afirmou que a perda de privacidade ameaça a própria individualidade. O artista chinês participou de uma conversa no palácio de belas-artes Bozar, em Bruxelas, diante de mais de 2 000 pessoas, para falar sobre seu livro mais recente, “Ai Weiwei on Censorship”, publicado pela Thames & Hudson em 2026.
“Já não temos privacidade e, quando os indivíduos não têm privacidade, deixam de ser indivíduos para se tornarem o produto perfeito”, disse Ai Weiwei durante o encontro realizado no início de outubro. A conversa foi conduzida por Chris Dercon, da Fundação Cartier.
O artista também criticou a autocensura provocada pelo medo de represálias. Para ele, embora as pessoas sejam consideradas livres para dizer e pensar o que quiserem, existe um acordo tácito orientado pela autoridade e pelo Estado, que define o que é correto e aceitável. Ai Weiwei destacou o poder de cada indivíduo para transformar realidades injustas.
Arte e dissidência
A relação entre arte e ativismo marcou a trajetória apresentada no encontro. Ai Weiwei passou a infância exilado com a família em uma região remota da China, durante a repressão do regime de Mao. Em 2015, deixou o país depois de uma perseguição do Estado relacionada à divulgação da morte de mais de 5 000 alunos no terremoto de Sichuan de 2008.
Entre as obras lembradas está “Sunflower Seeds”, de 2010, instalação que ocupou a Tate Modern com milhões de sementes de girassol produzidas por milhares de artesãos. A obra explorava a relação entre homogeneidade e diferença e refletia sobre as tensões entre o indivíduo e a massa.
Em “Remembering”, de 2009, o artista usou 9 000 mochilas de alunos mortos no terremoto de Sichuan na fachada do Haus der Kunstn, em Munique. As mochilas formavam, em chinês, uma frase sobre a felicidade de uma menina durante os seus sete anos de vida.
Ai Weiwei também recordou a prisão, a violência policial, o período de reclusão em casa e os anos em que não pôde deixar a China porque teve o passaporte retirado. Ele afirmou que se define pela curiosidade sobre a condição humana, a liberdade de expressão, os direitos humanos e a criação artística.
Exposições na Bélgica
A temporada cultural de outono em Bruxelas inclui duas exposições dedicadas ao artista. “Ai Weiwei: The Art of Defiance” está na galeria Patrick Derom até 14 de novembro. A mostra é apresentada como a primeira grande retrospectiva de Ai Weiwei na Bélgica e reúne trabalhos de diferentes fases de sua carreira.
A exposição “Ai Weiwei: Life, Revolt, Poetry. An homage to Ai Qing & Emile Verhaeren” permanece no museu Émile Verhaeren até 13 de dezembro. A mostra aproxima o poeta belga Émile Verhaeren de Ai Qing, pai de Ai Weiwei, que foi o primeiro tradutor dos poemas de Verhaeren para o chinês.







